quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O gênio fora da lâmpada: uma tentativa de controle do mundo externo.




Atualmente, já não consigo mais distinguir a realidade que vivemos daquilo que de fato desejamos. Vivemos aquilo que desejamos, não no que, necessariamente, cremos como postula filmes, “O Segredo”, por exemplo. Tenho observado, que as construções e realizações materiais se dão mediante a força dos desejos. É no contato claro com nossos desejos que os nossos pedidos, as nossas conquistas são alcançadas, são realizadas. E já não tenho a menor dúvida em afirmar, que todos os desejos são atendidos por movimentações de forças e propósitos que escapam a compreensão e racionalidade. A mentalização criativa, o mantra da prosperidade e outros não se adéquam a realidade, até que nosso desejo esteja livre para desejar. Sem neuras, ocupações, preocupações, relações de causalidade. O desejo deseja, e nós como seres desejantes recebemos aquilo que ele nos proporciona.
Assim, quer me parecer cada vez mais, que o medo dos Exus e o fascínio que eles provocam advêm da capacidade que eles têm de internamente aglutinar os desejos e dar a ele forma, nome, cara, expressividade. O uso que fazemos dessa força é ainda muito moral ou imoral, mas ressalto que ela é amoral. E sendo assim, quer me parecer que o uso da lâmpada para fins de caridade e altruísmo, nos moldes cristãos colocados, é mais uma forma de se manter os gênios impotentes. Similar a domadores de elefantes que quando ainda novos os acorrentam a árvores maiores que a força deles e depois de crescidos os mesmos não conseguem e nem tentam romper mais os laços.
Quero dizer que não há meio termo no uso da lâmpada, não há concessão no uso da mesma. Ou se tem uma e realizam-se os seus próprios desejos, ou se cria uma fila na espera da generosidade de Aladim conceder um pedido. Aqui estou pensando nas filas de atendimento que se realizam nas giras. Mas perceba que nessa relação, Aladim/médium é também um tolo. Tolo porque ele não é gênio embora se faça passar por um e ganhe notoriedade. De todo modo, quero acreditar que o desejo de médiuns devam ser deslocados para outro sentido. 1 dar novo colorido aos próprios desejos. 2 ensinar as pessoas a fazerem uso de suas lâmpadas, despertarem o gênio adormecido. Com isso estou dizendo que seja enquanto médiuns ou não, necessitamos aprender a dar uso mais consciente a esta força denominada de Exu. Esse gênio da lâmpada possibilita moldarmos a realidade, a nossa, em especial.
O que denominamos de riqueza é o uso desse desejo, ou melhor, dessa realização, já que a grande maioria deseja ser rico, no entanto, fomos catequisados para sabermos que riqueza é a essência espiritual e não o acessório do material. Mais ainda, poucos de nós estamos de fato abertos e dispostos a abrirmos mão do controle que já temos de nossas vidas, mesmo que isso signifique expandir e prosperar para novos horizontes.
É dentro desse quadro que os Exus e os gênios das lâmpadas ganham face amendrotadora, temível, demoníaca, já que eles representam a quebra e a ruptura com a normalidade, com o padrão estabelecido, com as regras postas e dadas. Essas forças representam e simbolizam o que em primeira instância classificamos como transgressão, desobediência às regras da sociedade, às normas do estatus quo. De maneira que nosso desejo de riqueza é apenas fonte de neurose, de stress e de tensão anímica. Poucos deram as costas a esta catequização e fazem uso, não das riquezas celestiais, mas das materiais, que brotam e encontram-se dentro das cavernas e grutas.
Por enquanto, estamos aprisionados pelo mago dentro da caverna, mas já não é sem hora e sem tempo de mexermos nessa estrutura, de libertarmos o nosso potencial, de rompermos com a tradição e o padrão que nos foi dado e nos reencontrarmos com nosso desejo. Longe de sombrio e perverso, ele é a base, o alicerce que nos garante a transformação do adolescente em adulto e do alfaiate em príncipe. Libertar o gênio é um trabalho de fricção, um lidar com nossos desejos, nossas frustrações, nossas batalhas e lutas. É sair da condição de paz acovardada e ir à busca do bom combate, isto é, sair da aceitação pacata e resignada e lutar pelo que se deseja e acredita. E não se faz isso sem desagradar, sem criar tensão, sem produzir atrito, sem deslocar acomodados para outros lugares, sem feridas que machucam, sem lutas que se perde.   
São nossos desejos na sua elementaridade mais básica e salutar que nos proporcionam e garantem a conquista material. Sim, porque para libertar o gênio é necessário força, esforço, trabalho, labor que pode ser direto ou não. Diretamente é quando se deseja e sabe-se o que se deseja: enriquecer, prosperar. Indiretamente é quando apenas se trabalha e dele advem o enriquecimento. Em ambas as vias foram ensinadas pelas tradições religiosas de forma geral que é uma estulticie esforçar-se para garantir posses terrenas e materiais. O que é uma verdade, já que não se tem controle dessa força, ela age e atua por mecanismos que desconhecemos e ignoramos.
Mas é bom ficar claro que todas as bases da ciência de previsão e poder nascem do desejo humano de controlar. E nesse desejo não há distinção entre a fissão nuclear desenvolvida no mundo da ciência e a pratica do feiticeiro que faz chover. Em ambos, o que esta se realizando é o uso da lâmpada, é a realização dos desejos e isso é importante não perdermos duas coisas de vista: 1- todos os desejos serão realizados; 2 não tem como mensurar ou comparar desejos entre as pessoas, cada um deles é legitimo por dialogar com aquilo que se é, no momento em que se deseja. Depois podemos mudar, mas naquele instante, a manifestação do real, a plenificação da realidade ocorreu da forma que desejamos.
Finalizando, os gênios atendem pedidos. Exu é um gênio da lâmpada maravilhosa, de uma força atratotara fenomenal e espetacular. A promessa deles não é a de garantir o reino dos céus e sim o de proporcionar bem estar e conforto no mundo material. Na mitologia iouruba e tantas outras a oposição corpo e alma, céu e terra nunca foi pobre, pelo contrário. Os deuses gregos e romanos cobiçavam, invejavam, guerreavam e comiam como glutões. Os orixás africanos comem, pedem oferendas, celebram a riqueza do espírito na demonstração simbólica da matéria: ouro, milho, ovos, mandioca, fubá, pipoca, outros. Entre nós cristãos esses deuses são imundos e nocivos, são diabólicos. Até hoje, Exu é visto como sendo e tendo parte com o diabo, mas prefiro pensar que essa representação nasce de cabeças doentes, como aquelas que desejando um deus tão puro, tiveram que inventar e criar tantas pervesões para seu deus reinar melhor: judeus, bruxas, negros, índios, tudo o que é diferente entra no rol do demoníaco.
Dessa forma eles tiveram que criar e culpabilizar tudo o que dança, tudo o que mexe os quadris, tudo o que ri e se sente feliz, inclusive, pela risada dada. É nessa ordem que eles ensinaram o medo, a culpa, a dor, a expiação e o castigo. E nesses ensimanentos aprisionaram todas as lâmpadas e todos os gênios para eles. A riqueza é condenável para os outros, eles não vivem sem ela e este é o pior tipo de pobreza conhecido: a que não consegue dar, a que não consegue compartilhar, a que toma do outro pelo simples prazer de não conseguir ver o prazer em nada e ninguém.
De modo que aquele que o lado temível de exu e do gênio é o de ao despertar em Aladim a força atratora da prosperidade, ele faça o pedido de impedir que qualquer outro venha ter um gênio, que qualquer um outro realize seus desejos, seus sonhos. O gozo dele passa ser a castração e a inutilização do outro. Nesse ponto quem faz uso da força de Exu para separar casais, arranjar casais, adoecer pessoas trazer a pessoa amada em três dias é de uma pobreza que a lama e o lodo nunca se fará ouro e ostra. 

Um comentário:

  1. É uma visão diferente dos Exus, vou refletir mais sobre o que escreve, vou indicar para o meu pai de santo, para ver o que ele diz.

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