sexta-feira, 19 de outubro de 2012

BASTA UM NÃO QUERER.





À uma amiga  
No facebok corre um post, entre as mulheres apaixonadas, que mostra duas pessoas e uma mesma gominha esticada no dedo de ambos, com os seguintes dizeres que podem ler ao lado. A imagem, assim como a frase é ilustrativa para o que desejamos escrever, porque retoma a singeleza do amor no seu aspecto mais lúdico, infantil, espontâneo, terno.

Extrapolando a imagem, insinuo que a brincadeira retoma uma parte da infância, que será primordial para o restante da vida- a confiança. Não há relação que se construa sem confiança. E não importa a idade que temos, todas as vezes que alguém trai a nossa confiança, alguma coisa em nós retoma a fragilidade infantil, a ingenuidade. Lidar com essa fragilidade não é fácil em nenhuma época, em nenhum momento da vida, seja ela adulta, juvenil, sênior.

Assim, na brincadeira de gominnha (e creio que todos nós brincamos) mesmo quando a usávamos para acertar o outro, ali se estabelecia uma relação de troca. Nessa direção chego ao ditado popular que diz: “se um não quer dois não brigam.” Pura verdade! Mas o que tenho observado na clínica é que: se um não quer, dois não se amam, não ficam juntos, não se relacionam. 

E isso é a parte dolorosa das relações, sejam amorosas, ou não, é que basta apenas um dos parceiros não querer mais para que tudo acabe, se finde, termine.  Lidar com essa fragilidade não é fácil. É de fato complexo. Uma das grandes tensões da relação consiste nesse voto de confiança tácito e mutuo: não largue a corda. E quando alguém larga, isso é frustrante demais.

A frustração é a de que simplesmente não temos controle sobre a vida do outro, os sentimentos, pensamentos e emoções dos outros. Mais igualmente frustrante é saber que mesmo amando, gostando, o outro já não sente mais o mesmo e não há nada a ser feito a não ser aceitar o término. Mas como se aceita isso? Como se aceita que a qualquer momento, no ápice da brincadeira, o parceiro (a) pode desistir, dizer que não quer mais, que cansou? Essa sensação de impotência dilacera a alma, corroi as entranhas, amargura a vida. A pessoa olha para todos os lados em busca de uma explicação, por que eu?

Novamente, a clínica tem me mostrado que ninguém aceita Altas no amor. Um pedido tão natural e tolerável nas brincadeiras da infância. Quando no amor, ela se faz inaceitável. Em nossa concepção o outro não tem direito a rendição. O outro está fadado ao compromisso eterno até que a morte os separe. Não quero entrar nessas divagações. Nessas que tentam mostrar o outro lado, isto é, o direito que todo ser humano tem e deve ter e infelizmente até fazer uso, de desistir, largar, soltar, não querer mais. Mas, quero retornar na dor do não, a negativa amorosa.

Afinal, como sobreviver depois dessa recusa? Como não olhar para dentro de si mesmo e tentar encontrar onde errou? Como não sentir-se culpado (a)? Como não se condenar pela perda de tensão e interesse do outro e ao mesmo tempo não amaldiçoá-lo por ter desistido?

Muitas partilhantes chegam até mim procurando essas respostas. Elas chegam trazendo uma fenda n’alma.  De modo que muito mais do que uma resposta para essa cicatriz, elas querem um remédio que atenue a dor: ora da falta, ora do orgulho, ora da vaidade, ora da rejeição, ora do amor mesmo.  

E a tristeza é que não há receita, não se tem remédio pronto, não se tem uma dosagem predeterminada e pré-estabelecida. Mesmo porque a dor advêm de uma fenda que é anterior a relação. E essa fenda quer ser vista, percebida, notada que há uma dor e para remediá-la tem que olhá-la nos olhos.

A única dica que atrevo a passar é que nesse momento de fragilidade não aceite respostas fáceis, respostas prontas. Não aceite nada menos do que a verdade por mais que ela machuque e maltrate. Trabalhos não trazem a pessoa amada e por amor a si mesma, a vida, ao outro, ao amor, nada é menos amoroso do que o amor obrigado, sem vontade. Então não aceite essa resposta pronta e mal acabada. Tão pouco se sujeite as caricias fáceis, daqueles que esperam sua fragilidade para ter aquilo que nunca deu quando estava centrada.

Sugiro que procure uma amiga (o) que te escute. Que esta amiga não fale nada, não diga nada, apenas fique ao seu lado. Ora passando a mão nos seus cabelos. Ora, tomando um porre juntos. Ora falando mal de todos homens, amaldiçoando a todos. Até que um vento silencioso e misterioso traga a certeza de que não ira morrer pela falta dele (a). Até que o coração esteja aberto para receber uma flechada misteriosa que vai lhe fazer pegar outra gominha e começar uma outra relação.

No mais, minha amiga, me parece que tudo é muito fácil e muito falso.
Bjs para vc!!!



Um comentário:

  1. É mesmo interessante como um mesmo texto pode ter diversas interpretações. Certo dia o meu psicanalista sugeriu uma reflexão sobre o tema, com a seguinte pergunta: você já reparou o número de mulheres que são arrimo de família? O que nos remete a fala das nossas avós: "antes sós do que mal acompanhado"....espero que este mísero comentário possa ajudar a sua amiga...

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