segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

AS SENHAS DO EU: o sadomasoquismo contra Sade.


Escrevi sobre as senhas do eu, primeiramente, em setembro de 2012 http://universofiholosofico.blogspot.com.br/2012/07/as-senhas-do-eu-preambulo.html depois em fevereiro de 2013. http://universofiholosofico.blogspot.com.br/2013/02/as-senhas-doeu-imagens-de-nos-mesmos.html Na primeira parte falava do amigo e do acesso que este tem em nós. Pensei o amor como sendo essa capacidade que alguns têm de recuperar nossos arquivos perdidos e esquecidos. Falei disso sem deixar de tocar na possibilidade de um inimigo, ou falso amigo, acessar nossos arquivos. A senha não tem antídoto contra hackers.

Na segunda parte me impressionei com a dinâmica de um atendimento e depois fiquei ainda mais impressionado com as várias pessoas que acharam se tratar delas. Re-lendo pude observar que de fato trata da maioria de nós. Todos nós desenvolvemos relações nas quais o outro detém a nossa senha, todavia a percepção que Tranca-rua nos fomenta é da servidão voluntária, da chantagem calculista, da reclamação do sofrimento mais como queixa do que como dor. 
Já nesta terceira parte tento falar do que ficou aberto nas outras partes. Adentro o universo da sexualidade, especialmente as relações sadomasoquistas. O pano de fundo é um olhar lançado sobre como pensamos o prazer, vivenciamos a culpa, desejamos a transcendência, nos fazemos humanos. Classifiquei as partes em: a cama; a rua; a nudez e a roupa.

A CAMA

Recordo que alguém já disse que a cama é um objeto metafísico, pois nela se reproduz, se inter-relaciona, se morre. Se a cama é esse ente físico e metafísico, o ato sexual corresponde muito apropriadamente a essa analogia, tendo as mesmas características. A função orgástica do ato sexual é bioenergética, terapêutica e, possibilita, mediante, o orgasmo, a força do renascimento, da purificação, da libertação. Possibilita também a co-criação do casal e até mesmo a sua re-invenção.


Todavia, nada disso retira a dimensão assustadora dessa força orgástica. Essa relação de proximidade e até mesmo de inseparabilidade entre o sexo e a morte assusta muito. De modo que a energia sexual perturba nossa psique e algumas modalidades sexuais assustam ainda mais, seja por desconhecimento, seja por preconceito mesmo.

Com tudo isso, quero refletir, que deveríamos nos permitir sermos mais abertos a essa energia terapêutica e redentora nos seus mais diversos formatos e modos desde que atendesse os princípios de: a- ser realizados entre adultos; b- ser consensual.

Recentemente, foi divulgado uma pesquisa de uma psicóloga de Ohio afirmando que livros como 50 Tons de Cinza perpetuam a violência contra as mulheres.

A declaração é forte e deve estar bem embasada. No entanto, ela não deixa de suscitar uma reflexão e três considerações que me ocorrem: 1: a diferença entre agressão à mulher- ato de violência e brutalidade; 2: relação sadomasoquista (SM)- ato consensual; e, finalmente, 3: excessos e exageros do universo SM que não abordaremos, mas leva as pessoas a confundirem o primeiro e o segundo tópico com o terceiro. 

De toda forma, esse texto tem como objetivo pensar a cama como espaço capaz de resolvermos demandas do dia-a-dia de forma sã, saudável, consensual e terapêutica. E o ato sexual como a forma de canalização dessa energia orgástica sendo utilizada de maneira consciente, isto é, atento o máximo possível aos desejos e instintos da relação. A hipótese é pensar se seria possível diminuir ou atenuar a violência contra a mulher, justamente, fazendo uso de uma sexualidade mais plena, ainda que por mecanismos que requereriam um ponto a mais fora da curva- o SM no seu aspecto menos hard.  

Na Cama com a Psicologia. 

Não sei se o universo BDSM tem níveis, camadas. Estou estipulando uma agora que seria o SM ligth que estaria um grau acima do  baunilha, o SM soft que seria intermediário e o SM hard que caminha muito na direção da pesquisa publicada pelas agências de notícias acerca do livro. O diferencial entre eles seria o grau de sadismo do Dom, na verdade, do grau de prazer em proporcionar dor.

A professora de Ohio não é a primeira psicóloga a ver como “perversa” a prática SM, uma parifilia. Creio que não será a última também.

Psicólogos renomados taxaram essa prática de perversa. Outros tantos falam das repressões ou não desenvolvimento na fase anal dos praticantes desses atos. Wilhen Reich o que eu mais admiro por tudo, alardeava que o sadomasoquismo reafirmava as relações capitalista de dominador e dominado, sendo assim, algo a ser evitado devido a esse caráter exploratório, contrário a uma sexualidade satisfatória, ou a manifestação orgástica plena.

Sei que todos disseram muito, falaram demais, mas, basicamente, de fora. A relação sado-masoquista vista por dentro e de dentro trabalha outras questões que vão desde uma possibilidade hipotética de uma vazão orgástica até uma relação mais profunda fruto do ato sexual que se aproxima do êxtase religioso.

II A RUA

O cristianismo é lindo, mas assusta pelos seus conceitos mais sacros- a crucificação e a eucaristia. Para Paulo e tantos outros o cristianismo se dá na ressurreição e sem ressurreição não há cristianismo. Se esta concepção pode ser acertada fato é que para se chegar a ressurreição passa-se pela crucificação, deixando uma suspeita que para se alcançar a plenitude do espírito é necessário a flagelação do corpo. Em verdade, muitos vêem na via sacra, na flagelação, na coroa de espinhos, na túnica reduzida a andrajos tampando somente a região genital, uma carga erótica imensa. Lobão foi o primeiro que eu vi chamando atenção para isso numa entrevista na década de 1980. A imagem não me causa nenhuma espécie, mas a carga erótica da cena, não pode ser perdida de vista. Sobretudo, porque foi nisso que o cristianismo foi transformado: na resistência ao sofrimento para se alcançar o reino dos céus. Haveria um gozo nisso? Haveria um prazer nesse sofrimento? 




Longe de afirmar que tenha sido isso que Jesus desejou é fato que foi nisso que o cristianismo foi transformado, a saber, num discurso de renuncia, sacrifício, entrega, devoção. Deixaram claro que o importante é a vida depois da morte e não essa vida na carne, que por si só é sinônimo de pecado.

De posse desse discurso legitima-se, com mais ou menos consciência, a miséria, o sofrimento, a dor de todos os lados. Ou melhor, vemos a dor, o sofrimento e a miséria sendo justificados como condição natural e divina, quase que uma condição indispensável para existência. Sendo que é recente entre nós a consciência de que podemos e devemos nos opor a esse tipo de opressão e exploração, seja do homem pela mulher, do adulto sobre a criança, do branco sobre o negro, do hetero sobre os homossexuais e tantas outras formas de opressão e dominação. 

Em parte a relação sadomasoquista dialoga com essa imagem, mas rivalizando. A relação da sub com o corpo é uma relação de posse do seu próprio prazer. Um prazer que se alcança não na negação do corpo, mas justamente, nele, por ele e conseqüentemente, além dele. Mas, é possível ir sexualmente além do corpo?

É essa busca que transforma o prazer dos praticantes em algo de caráter místico, transcendente. Já que o corpo e não apenas ele é uma cena erótica construída para que o corpo alcance o seu limite e o supere. E é justamente a superação desse limite, que rivaliza com o místico, com o transcendente, com essa busca da imortalidade no ato sexual. Algo que os tântricos compreendem melhor. Na mesma direção tântrica  culturas menos pudicas colocaram essa via de acesso e de ascese como sendo válida. Ascese que o cristianismo sublimou quase que completamente, ao ponto de ver no corpo e nas genitálias todo pecado, toda culpa, logo nos órgãos que garantem e atestam o poder divino de conceber, gestar outro ser. No cristianismo ocidental a transcendência se faz pela culpa, pela negação do corpo, mas deixando claro que o gozo é do espírito. 
Nossa sociedade, seja no seu aspecto religioso, seja no seu ordenamento econômico-social tem dificuldade de encarar o prazer seja do corpo ou da alma. O prazer é um tabu. Prazer enquanto gozo, satisfação, plenitude, realização. Não é atoa que nosso prazer esta relacionado com a embriagues e atos de fúria, que recordam hordas. Poucos de nos bancam o gozo sem culpa, sem deixá-lo cair na inconsciência ou na irracionalidade. De modo que essa dificuldade de lidar com o prazer gesta as perversidades. Perversidades que não deveriam ser individualizadas e menos ainda estigmatizadas sobre alguns grupos. O que deveríamos caracterizar como perversidade é o caminho tortuoso que escolhemos ao sentir prazer mais no gozo pelo sofrimento e a culpa do que na felicidade e no êxtase. Vejamos: 

A ROUPA

O Sadismo Social. 

Se o aspecto sádico e masoquista religioso nos passa desapercebido por serem mais tácitos e até mesmo discutíveis, os sociais são mais visíveis e ameaçadores, muito embora falte ar nos pulmões para denunciar as atrocidades. E é isso que é o aspecto da roupa, da aparência, daquilo que se esconde, se camufla, não se mostra. É a civilização frente aos instintos. É a roupa perante a nudez. E é isso que é o aspecto da roupa, da aparência. 
Um estudioso da prática observava que no ato sexual se despe, no BDSM se veste. Isso sugere que a nudez nessa prática é de outra ordem, está em outro nível, noutra parte da relação. O prazer não está restrito a genitalidade e aos genitais, está no corpo todo e na tentativa de integração desse corpo a todo o resto. 

O que desejo explicitar é que o sexo consensual entre dois adultos a sociedade condena, faz passeata, missa, sermão na montanha e todo o restante. Haja vista o que os homossexuais enfrentam e passam atualmente. O que dois adultos realizam entre quadro paredes escandaliza os 'bons', os 'puros'. Mas, estes não se escandalizam com as violências simbólicas e reais da sociedade. Os sadismos sociais continuam a ser cometidos sem que os 'bons' e os 'puros' se manifestem, se oponham. Aos olhos deles a sociedade é justa. Para legitimar a justiça social, econômica, eles se valem do discurso das desigualdades naturais. Aplicam na sociedade, apenas nesse momento, as regras da natureza. Essa mesma regra não vale quando descamba para a violência física, quando surge e eclode a horda. Em suma, eles têm dificuldade de assumir que a sociedade é violenta, sádica e tal sadismo tem seus impulsos legitimados, haja vista as guerras, a agressão às crianças, o “monopólio legítimo da força” dos policiais e tantas outras expressões sádicas do nosso dia-a-dia que não causam a menor espécie, nem a quem provava, nem em quem a recebe. Uma frase que ilustra muito bem isso é atribuída a Charles Chaplin que diz que aquele que mata uma pessoa é assassino. Aquele que mata centenas é herói.



Essas contradições existem e permeiam as nossas relações. A loucura disso é que os presidentes que levam milhares de seres a morte não são tidos como sádicos. Os torturadores brasileiros têm nomes de rua e os que lutam pela verdade são execrados. Volto a repetir e a insistir que esse sadismo social é legitimado pela maioria de nós. Diariamente estamos expostos aos mais diversos tipos de agressão, que vistas individualmente são monstruosos, mas vistas coletivamente é uma epidemia, é uma doença. 
A violência entre nós é uma doença. Claro que temos que imputar aqueles que a realizaram, mas no cenário geral, eles reproduzem violências maiores e menos visíveis. A forma com que lidamos com o capital desde o momento em que o recebemos até quando o distribuímos é violentíssimo, sobretudo, em nosso país. 
A Publicidade e Propaganda que produz o desejo de consumo para que o capital não pare de ser alimentado é de uma violência tão espúria e gratuita quanto colocar fogo no corpo de um mendigo ou de uma dentista. E em todas elas, sem exceção, há um sadismo. Há um gozo. Há um prazer imenso de humilhar, de se sentir maior, de diminuir o outro a um mero objeto do seu prazer. 
Há um mesmo gozo compartilhado em mostrar essa crueldade, essa brutalidade, esfregando na face de todos os outros. Em tudo isso, há o sadismo na direção fomentada por Marques de Sade, mas nada mais distante de Sade do que o atual BDSM. Sade estivesse entre nós seria provavelmente um publicitário. Faria campanhas publicitárias ao invés de livros descrevendo cenas explicitas de tortura. O prazer dele (Sade) estava em submeter o outro ao seu gozo sem a vontade e o consentimento desse outro. Sade não negociava o seu prazer, pelo contrário, a negociação retiraria toda instintividade, brutalidade que era a fonte do seu prazer. É o sadismo na sua forma mais clara, com níveis que se aproxima da psicopatia. O outro para Sade, para a propaganda, para um grupo de pessoas é meramente objeto do seu desejo, mas não é essa a regra do universo BDSM.  Pelo contrário até. E aqui é importante aprofundar essa discussão. 
O ponto de objeção mais forte ao sadomasoquismo diz respeito a transformação do outro em objeto. Desde Merleau-Ponty que isso é uma questão superada, pelo menos no que tange ao corpo, ao desejo. Ou seja, na relação amorosa, ora toco, ora sou tocado, ora faço o outro de objeto, ora o outro me faz de objeto do seu desejo. Nesse encontro está acertado o prazer dos dois. Isso é mágico e se bem explorado pode levar ambos a emancipação total, que no sexo é o orgasmo.
Reparem então que sem a entrega ora de um ora de outro, sem a cumplicidade de um com o outro esse momento não se dá. Não há orgasmo se os dois se recusarem a se entregar. É na entrega, seja como se dá isso, que acontece a possibilidade do orgasmo. Posto isto é imprescindível firmar e afirmar o sadismo da nossa sociedade. Nela as relações são objetais no pior sentido do termo e do ato, já que impedem por todas as vias, por todos os caminhos, de todos os modos, que o outro atinja o prazer. Impede-se que o outro goze também. E o mais inusitado é que o outro goza por estar impedindo o outro de gozar, de estar criando meios e mecanismos que impede, inviabiliza, dificulta o outro de chegar a sua plenitude. Isso deveria dar nojo, causar repulsa, mas pelo contrário, enquanto sociedade sentimos um prazer enorme nisso. Adoramos essa posição de castradores, de controladores do gozo do outro, da felicidade do outro, estão aí pais, professores, patrões, políticos que não me deixam mentir. Todos nós nos mais diversos níveis nos prestamos a esse serviço de corromper a natureza no que ela tem de mais linda- abundância, partilha e liberdade.  

Nessa mesma direção até a década de 1980 tivemos casos de homens inocentados por matarem em legítima defesa da honra. É recente a desaprovação social contra a agressão à mulher e ao menor. Éramos indiferentes a sorte deles. Já no que se refere à fome, a miséria a achamos normal, natural, divina (a culpa é de Deus) e não vemos o menor traço de sadismo, de perversão, de parifilia em conviver com isso, pelo contrário. A acomodação, a submissão com que aceitamos isso é sinal claro de sadomasoquismo nesse sentido mais amplo e agora sim PERVERSO do termo.

Mas, levanto tudo isso, porque essas relações sociais, orgânicas, fisiológicas, aconteciam, acontecem, mas não eram e não são rechaçadas com a veemência necessária. Não obstante, dois adultos que de comum acordo proponham experimentar o ato sexual mediante o caminho da dor eram e são rotulados de todos os nomes. Isso é ou não é estranho? Esse controle da genitalidade dos indivíduos, num patrulhamento imaginário do que um faz com o outro e como faz, se é permitido pelo Alcorão, ou se fere os preceitos bíblicos, ou os canônicos católicos e por vezes até a orientação do Livro dos Espíritos é doentio. Doentio, porque enquanto as pessoas estão buscando a plenitude diversos outros grupos sentem um prazer e conseguem um gozo numa tentativa de ordenar a sexualidade do outro. 
E, mais bisonhamente, e, bizarramente, ninguém se atém a pensar de onde esta vindo toda essa erotização do mundo da vida? Ninguém aponta e sinaliza que o desejo de ter, consumir cada vez mais, reduzindo o outro, ou fazendo o outro de objeto é a maior perversão do sistema, porque ele não é consensual e nem entre adultos. Ele é impositivo, contra todos, independente de sexo, religiosidade, 'escolha' sexual, raça, condição econômica, nacionalidade. 


De modo que quando essa erotização sexual deixa de ficar no nível simbólico, na dimensão do desejo e se faz violência com ataques a bancos, a policiais, a prédios institucionais, tendo como principais armas as pedras e o fogo, o mal estar na civilização está entre nós; mais nítido do que nunca. A horda acordou antes do gigante. Mas, jamais vamos olhar para o sadismo que alimenta tudo isso. Jamais vamos perceber a subjugação econômica, a violência social, a repressão a mulher que estão organizadas e orquestradas nos simples discurso e disposição dos lugares, como sendo fruto de um prazer doentio. 

E, enquanto, não percebermos isso as campanhas contra os abusos, as explorações perdem um pouco do sentido, ou melhor, não conseguem alcançar o sentido. É isso o que percebo em agressores de toda espécie, especialmente os de mulheres, invariavelmente, suas companheiras, é que esse mal estar criado seja pelo ciúme, seja pela autonomia econômica, ou pelo sucesso emancipatório da mulher, poderia ser resolvido sexualmente com cada um assumindo o papel de dominador (a) ou sub. Essa tensão orgônica, no sentido de Reich,  poderia ser canalizada em uma forma erótica, sexual para se evitar a covardia e o absurdo da violência contra a mulher, à criança, outro homem, contra os animais ou quem quer que seja.  
Uma sexualidade mais plena, uma genitalidade mais livre poderia se fazer escape dessa energia social pervertida e irascível que tortura, martiriza, espanca, mata. 



Assim, retornando a reflexão para uma relação mais micro e menos macro, focando as agressões entre casais, há no agressor e na vítima uma relação de dominação e submissão já posta, já colocada. Acredito que assumir para si essa condição de dominador não da vida do outro, mas de um momento específico da relação e na relação, possa dar a ambos o empoderamento perdido. Pode levá-los a sanar, mediante o ato sexual e a energia sexual, questões que são de outras ordens. Podem permiti-los uma descarga erótica de uma tensão social, econômica, seja qual for de opressão. 
O ato sexual tem a força purificadora de remodelar esse animo, de co-criar outra realidade. No entanto, caminhar com o sexo nessa direção é tomar consciência do próprio prazer, do próprio desejo e relacionar de uma forma bem diferente da que realizamos. É, sobretudo, compreendermos a sexualidade num sentido mais pleno, como alardeava o próprio Freud. E, ainda mantemos a utopia de que essa plenitude orgástica pode transformar o mundo como sonhou Reich. 

Como ponto dessa dinâmica, gostaria de mencionar que na agressão física esta contida o mesmo prazer, provavelmente, para quem agride e é agredido que a descarga orgástica proporcionaria. O diferencial é que a agressão tem como prazer o que poderíamos chamar de sadismo puro, isto é, o prazer de ver o outro diminuído, desprezado, barbarizado, oprimido pelo lado de quem bate. Já na perspectiva da vitima há o prazer de ser coitada, “crucificada”, tadinha, revelando um prazer masoquista da pior forma possível. Assim, esses prazeres acabam por revelar indivíduos inconscientizados do próprio desejo, ou mais precisamente, incapazes de vivenciar o gozo fora do que o sistema organiza como prazer. O que me faz recordar um caso de um marido que assassinou a esposa, porque ela insinuou contar para os amigos deles que ele havia broxado. Aos olhos dele e de milhares é melhor ser homicida do que broxa. 
É esse sadismo social que deveria nos escandalizar.



Em certa medida sou levado a acreditar que tenha sido contra esse tipo de sadomasoquismo social que ocasiona e perpetua a "impotência da ação" que Reich se opôs. O prazer orgástico que a relação sadomasoquista consegue alcançar com a consciência dos seus participantes é outra coisa, muito distante para serem confundidos como a princípio se deu, com a psicologa de Ohio. 

A NUDEZ

Caminho para a finalização, salientando que para falar da relação Dom/sub é importante retomar a dialética do senhor e do escravo de Hegel. Resumindo a história, para o filósofo alemão apontar o caminho dialético, ele deixa evidenciado como que o senhor depende do escravo e nesse sentido é um servo, em piores condições, que o verdadeiro escravo, já que este sabe realizar as tarefas e funções que o senhor desconhece. A dialética do senhor e do escravo mostra essa co-dependência. Mas, como constatamos todos os dias, mesmo depois de Marx, isso não é claro, não é dado, não é evidente. No entanto, o que alimenta a relação é tanto a inconsciência do escravo, quanto o desejo dele em um dia ser senhor, mas, não vamos analisar esse jogo. 




Nas relações sadomasoquistas, embora alguns Dons queiram insistir que não, a mesma relação se estabelece. O prazer do Dom depende da sub, da escrava, sem ela, esse prazer não se completa. É no prazer dela que ele alcança o seu próprio prazer. Não é possível então estando dentro da relação falar em explorador e explorado, dominador e dominado, já que o prazer só será alcançado se cada um guardar o seu lugar- Dom/sub, mas ir para além dele. Isto é, saber que os dois se complementam na busca e no encontro com o desejo. Um desejo que se desenha na manifestação consciente, na escolha consciente de ambos.

O erro das análises é ver esse universo sem a cumplicidade que o caracteriza. E essa cumplicidade não esta na dor, seja em sofrê-la, seja em provocá-la. A cumplicidade se efetiva no companheirismo que um e outro se colocam pelo prazer. E aqui é que as antinomias, os contrários se unem num sentido mais profundo, místico e em certa medida sagrado.

O Dom sabe que a sub sente prazer ao ser submetida à dor. A sub sabe que o Dom sente prazer ao infringir a dor. Os dois sabem que é por isso que eles estão ali, naquele momento, naquela relação. Eles sabem que aquilo é um jogo, uma sessão, uma cena. Sobretudo, eles sabem que o mais importante em tudo isso é que o prazer de cada um esta em ressonância direta com o limite do prazer do outro. Isso torna Dom e sub um. Nesse um cabe ao Dom levar e submeter a sub até os limites da sua força e cabe a sub entregar-se ao Dom o máximo que conseguir. Esse limite fica resguardado pela senha que o casal estabelece antes da sessão, fazendo com que o sádico seja na verdade aquele que se submete ao limite do outro e a sub aquela que provoca o outro até que ele alcance o seu limite, que muitas vezes eles desconhecem. No final ninguém deve se machucar e ambos devem ter explorado juntos os limites desse desejo, inclusive, o ampliando.

Essa relação de ampliação, de expansão, de cumplicidade, esmero, tem aspectos místicos que já chamamos atenção. Sendo que o desafio do corpo aumenta os limites do próprio gozo, do próprio prazer. Desafiar o corpo, os seus limites até o momento no qual o corpo roça a alma e esta abraça o espirito. Essa é a integração orgástica. Enquanto o Dom exerce o controle externo do corpo do outro, a sub exerce o controle interno do seu próprio corpo. Ainda que ela esteja fisicamente imobilizada, ela toda se movimenta, e mesmo que ele esteja fisicamente livre, ele está lá atento aos movimentos anímicos do corpo da sub. Ambos então estão parados e se movimentando, ambos estão transando, ainda que e quando não esteja acontecendo a penetração física. Fato é que outro tipo de penetração aconteceu, mais sutil, mais profunda, mais sensual, mais erótica, mais plena. E a beleza desse movimento é a entrega e o respeito. 

Uma digressão. Essa ação que pode ser desenvolvida no ato sexual casais fazem reiteradamente um com outro até que alguém explode, arrebenta, foge, escapa. Mas pode ser desenvolvido a dois, com atenção, afeto, cumplicidade, de forma amorosa e não sádica.

Assim, é um erro acreditar que as escravas, as subs, chegam ao prazer por estarem apanhando. Como uma diz: sadomasoquismo não é sexo com porrada. Elas chegam ao prazer por estarem se entregando a uma outra vontade, a um outro comando, que parece controlar e adivinhar, surpreender o desejo que ela ainda não revelou. Esse jogo, altamente prazeroso, lida com o mistério, o surpreendente, o inusitado. Lida com essa coragem de entregar o próprio corpo, confiando na cumplicidade, na amorosidade, no respeito dessa entrega. 
Grande parte do prazer se concentra nisso. E não sei se esse olhar se consegue de fora. Não sei se se consegue perceber o vínculo, o elo, a cumplicidade que esses dois criam, formam cuja coleira/corrente é um símbolo altamente pertinente. Já que se faz uma ligação que não é meramente física. A geografia do desejo transcende o corpo e atinge o imaginário. Cria-se um elo entre os dois, uma aliança, é um casamento. Ser dono(a) de alguém representa, ou deveria representar esse pertencimento que todos buscam, mas esbarra-se justamente na nudez. Somos convidados a acreditar que a nudez é o máximo da intimidade, mas se despir diante outra pessoa pode não representar nada, absolutamente nada, além de mostrar o corpo. 
Casais conhecem o corpo um do outro, o toque um do outro, o cheiro um do outro, mas muitas vezes desconhecem os desejos, as fantasias, as vontades, os quereres um do outro, seja individualmente, seja um com o outro. O dono é aquele que tem depositado em si a senha da outra, mas a outra tem a chave, tem que ter a chave para mudar a senha, realizar outras configurações seja junto ou separado. A liberdade deve ser de ambos, da que entrega senha e do que guarda a mesma senha, qualquer um a qualquer momento tem que ter a liberdade de abrir a coleira.   



Assim é uma relação que recupera, ao menos, simbolicamente, aspectos muito caro ao sentimento religioso que possuímos. Na cumplicidade entre Dom e sub retoma-se idéias caras ao islamismo, ao cristianismo, ao budismo: renúncia da vontade, do querer, cessação ou privação do desejar por um lado (sub); e proporcionar meios, cuidados, formas de conduzir a pessoa a este estado de renuncia (Dom). 

O sexo em diversas culturas foi utilizado e é utilizado como fonte de transcendência. Sexo é mais que vigor, é mais do que corpo. É corpo também, é vigor também, mas pode ser mais do que isso. Pode ser um encontro com o prazer. Não o prazer de uma descarga de tensão, mas o prazer de encontrar consigo mesmo no ato sexual. Nesse aspecto é uma oração conjunta, na qual cada corpo é um templo e pede-se licença para se entrar nesse território sagrado (não estou falando de amor). Lá ambos criam formas de se fundir com o todo, chegar o mais perto dessa sensação de plenitude. E essa busca, no que se refere ao ato sexual é imprescindível a parceria. Os dois vão caminhando juntos até o momento em que se separam para se fundirem com tudo. Poder perdurar esse estado de fusão, poder ampliar esse estado de prazer, retê-lo junto ao corpo até que ele fique gravado e instalado na alma é uma das buscas do sexo. 



Muitos dons e inúmeras subs se prenderam no papel e na cena do que é de um e do que é do outro. O sexo é liberdade, é o momento no qual pode haver a maior sensação de liberdade estando no corpo, quase escapando dele. Se as regras impedem isso é hora de mudar as regras. E se a sua forma de fazer sexo te proporciona isso. Se junto ao outro você consegue ir além de si mesmo- ótimo- a plenitude foi alcançada de maneira adulta, lúdica, criativa, consensual. 

Isso tudo apenas para chegar no ponto mais paradoxal da reflexão. Em nenhum momento da relação, fora do ato em si, o outro pode ser considerado objeto, ainda quando ela queira, deseje, almeje. O sentido é todos terem a compreensão de que aquilo é uma sessão, uma cena. Um cenário que desmonta. Similar ao artista que realizou o filme, a novela, a peça e deixa o personagem na coxia. Assim, quando a sessão terminar, cada um tem que ser capaz de estar mais emancipado ainda, seja por ter se entregado, seja por ter confiado, seja por ter respeitado. Todos humanos, todos livres, todos com as chaves para abrirem as correntes e irem embora. Todos com a senha para pedir altas e se retirar. Sem culpa, sem mágoa, sem rancor. Nesse ponto é o caráter terapêutico mesmo do ato. Um dono não pode pedir submissão 24/7 e uma sub não deve dar isso. A relação não é objetal. Ela (relação) explora os limites do outro, ela busca controlar o desejo e a vontade da outra, a outra se rende e se entrega a esse desejo e a esse controle, mas na vida normal, cotidiana, ambos devem ser emancipados. Ambos devem estar conscientes de que não são donos do mundo e do universo (dom) ou que são escravas dos outros (subs). A cena deve dar a cada um o entendimento claro de que nenhuma situação de sadismo social se justifica. 

De modo que de longe as relações sadomasoquistas são relações de dor, sofrimento, sadismo. Da onde observo as relações sadomasoquistas são relações de cumplicidade, complementaridade, amorosidade, respeito, liberdade. Liberdade para experimentar no corpo, com o corpo, prazeres que a alma deseja. Por louco que pareça é sexo sem culpa, com a liberdade de encontrar o prazer e retê-lo como sendo seu. É a submissa aprendendo a ser dona do seu prazer e o dono aprendendo a ser submisso a vontade e limites de outros. É então a sub tomando posse de si mesma e o Dom aprendendo a controlar seus impulsos sádicos, no sentido social que aplicamos no texto. No final é um exercício interno para todos em que em jogo estão a diminuição do orgulho por parte do Dom e a humildade por parte da sub. E, essas duas coisas se confundem o tempo todo e não aparece claramente ora nenhuma. 

É então loucura, mas nas relações sadomasoquistas, realizadas de forma consensual entre os envolvidos, esta implicado uma das formas de transcendência que mais se aproxima do amor religioso, mas sem culpa. 



Os donos que querem servidão, escravidão reproduzem as armadilhas seja do ego, seja do sistema, que a relação S/m ajuda a desmontar. 

Então, se o sexo em todas as culturas espelhou a transcendência, acredito que as formas mais light do universo BDSM possa ajudar casais a lidarem melhor com a dinâmica da relação. Vejo isso como uma senha que encenaria as mazelas sociais, econômicas que estamos presos, dando ensejo para uma plenitude orgástica, uma vida mais satisfatória e uma existência menos sádica para alguns e masoquista para outros. No geral, mais saudável para todos.  





Um comentário:

  1. Sensacional!!!! Você é Dom? Gostaria muito de ser sua sub!!

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