sexta-feira, 17 de julho de 2015

O TEMPO E A CLÍNICA: métodos e procedimentos.

Quando comecei a atender com o Aconselhamento Metafísico tinha certeza que resolveria tudo em 4 sessões. Utilizava o aconselhamento para quem comprava o pacote e ao mesmo tempo realizava atendimentos avulsos para quem nos procurava ocasionalmente. Invariavelmente, a coisa que me causava mais perplexidade eram eles marcarem retorno depois das quatro sessões. Eu achava isso a coisa mais inusitada e por vezes até um sinal de fracasso, como assim, você deseja voltar? O que eu fiz de errado? Rsrsrsr.

Grande parte das técnicas bioenergéticas tem uma ampla aplicação nos planos sutis, na verdade, derivam dos campos sutis e quando as aplicamos por lá, os resultados são mais rápidos. Lá a consciência responde mais prontamente do que aqui no plano físico. Os resultados que obtive, na mesma sintonia, que encontramos no plano físico se deram com pessoas que realizavam ao mesmo tempo um pull maior de técnicas, por exemplo: realizavam uma atividade física regular, faziam um acompanhamento psicológico e realizavam o aconselhamento. Essa busca produzia uma maior absorção das informações e amplitude de entendimento e do atendimento. As informações eram mais bem absorvidas, seja pelo corpo emocional, mental e até mesmo o físico que parecia absorver informações pelos poros. O senão a isso é que a gestalt, o fechamento dessas informações, deveria ser realizado pelo próprio buscador, já que nós os terapeutas não dialogávamos entre nós. Mas, as percepções da clínica, os toques clínicos encontravam uma ressonância muito fina com as percepções energéticas realizadas no aconselhamento e vice-versa.

Retomo isso por alguns motivos, como por exemplo, o fato de que parte da minha ansiedade se altera na medida em que vou estagiando em Filosofia Clínica e é basicamente nesse ponto que eu quero falar, porque acabei encontrando alguém mais ansioso do que eu. E, esta nossa partilha tem provocado em mim reflexões que escrevo agora.



O espaço clínico é o locus da paciência, da observação, da compreensão dos mais diversos tempos e ritmos.

Há o tempo externo, cronológico, que está a cada dia mais acelerado. Há o tempo subjetivo que tenta se encontrar com esse tempo externo e por vezes caminha com a língua para fora, agitado, sobressaltado, ejaculando precocemente, ou impotente, sem prazer. Há o tempo biológico, nos chamando à mediação e conciliação entre esses dois ritmos por vezes tão antagônicos e diversos.

Na clínica, de certo modo, não declaradamente, tentamos ajudar o partilhante a encontrar esses três tempos os tornando um. Aproximando o partilhante do seu ritmo, do seu tempo. Observando junto a ele qual é o que prevalece, como talvez, um atropela o outro, ultrapassa o outro, ignora o outro. De modo que fiquei pensando como o poeta fez em “A Procura da Poesia”, algo mais ou menos assim:

Sua pressa, sua vontade, seu desejo, seu certificado, isso ainda não é filosofia clínica. Sua observação, seu circunstanciar, sua cara de gozo frente à descoberta de uma EP, também não é filosofia clínica. Sua intervenção, sua tabua de submodos, nossa tábua de salvação, as estruturas de pensamento, também não o é. A filosofia clínica começa antes de tudo isso e prossegue depois de tudo isso.

Tua escuta, o timbre da sua voz, a transcrição da sua fala, ainda não é Filosofia Clínica. Atente-se para o silêncio que tu faz entre uma fala e outra. Recorde e reviva cada segundo da sua fala, enquanto transcreves. Recorde do seu corpo, da sua respiração, do posicionar das suas pernas, das suas mãos aflitas, dos seus sentimentos de medo e vergonha, agora caminhas, mas não para a filosofia clínica e sim para si mesmo.

Somente depois disso, desse engasgo e tormento, desse medo e atração, dessa repulsa e aversão é que deve entrar, silenciosamente, no universo do seu partilhante, lá estão as singularidades dele a espera de? A espera do que? Varia de partilhante para partilhante. E é devido a esse variar que a clínica junto ao outro só inicia depois de as termos feita em nós. Sem nos submetermos a isso tendemos a ser destemidos demais, impiedosos demais, secos demais, diretos demais.

Aqui, novamente, há uma analogia entre o médico e o filósofo clínico no seu estágio. Ambos podem se apropriar de uma metodologia, de um instrumental cirúrgico, de um uso. Ambos podem transformar o seu fazer em técnica, mas, quer nos parecer, que o ser médico e o ser filósofo clínico encontram-se além desse fazer técnico. Fazem-se nele, com ele, mas quando se reduz a apenas tecnicidade perde grande parte do efeito. E talvez um afastamento entre médico e filósofo clínico se faça importante.




O médico não precisa ter tido uma fratura exposta, ou um corte no supercílio, ou realizado uma cirurgia plástica para operar, mas ele precisa saber o quanto um bisturi é afiado, como minimizar as cicatrizes. No mesmo sentido, o filósofo clínico precisa saber o quanto aplicar as categorias alivia o partilhante. Saber como que conhecer o histórico do partilhante o deixa mais seguro e confortável, relaxado e confiante. Como que sabendo quem ele é, o que ele deseja, o que ele busca, onde ele se encontra, para onde ele deseja ir, a operação se faz harmônica. É baseado nesse alívio que ele pode explicar com mais convicção ao partilhante: você apresentou um quadro x (baseando-se na EP) e o melhor tratamento é Y (utilizando-se dos submodos).

Mas, se o médico tem apenas o outro para aplicar os procedimentos técnicos, o filósofo clínico tem a possibilidade de realizar isso em si mesmo, não por si mesmo, mas em si mesmo. Creio ser esse o motivo do estágio. Mais do que obter um certificado, mais do que um tempo para se alcançar, ele representa uma maturação, uma descoberta do seu tempo cronológico, com o seu tempo subjetivo, provocando uma harmonia no tempo biológico. Pode ser um tempo de pressa, mas não de atropelamento. Pode ser um tempo de espera, mas não de abandono. Pode ser um tempo.... o seu tempo, mas consciente dessa temporalidade, dessa dimensionalidade. Mas, eis a questão: como se ensina isso? Como se transmite isso?

O que tenho observado é que durante o estágio pode-se encontrar as técnicas e saber operacionalizá-las de forma hábil e atenta. Mas, isso cria uma distância entre o filósofo clínico e o partilhante. De modo geral, esse filósofo clínico jamais vai saber de onde deriva e sai a busca, a queixa, a dor, o sofrimento do partilhante. Ele tende a ajudar o mesmo, talvez até mais do que o outro filósofo, mas talvez perca a beleza do encontro, do desanuviar uma singularidade, de se tornar antes de tudo e depois de tudo, amigo. Amigo no melhor sentido filosófico do termo e do ato, isto é, ser com o outro. Não ser ele, mas compreender quem ele é e porque ele é. Talvez esse seja o sentido da técnica aparelhar, fundamentar o que o filósofo ‘deveria’ ser; amigo. Não apenas da sabedoria, como de outros sabedores. Amigo do saber e do saborear- outras vidas, histórias, historicidades.

Um saborear que trás a dimensão do tempo. Da paciência. Da espera. Da subjetividade do outro aflorando, se revelando, se mostrando, num tempo diferente que o do calendário, que avança diuturnamente, semanalmente. Com movimentos previsíveis, observáveis, controlados e marcados semanalmente. Até que um dia, sem nenhum motivo aparente a não ser o da paciência e da espera, da confiança e da entrega, o tempo subjetivo se mostra, se expõe, se deixa ver por todos, preenche a historicidade e a transborda, significando e circunstanciando todos os tempos, todos os espaços. O outro não é mais tempo, ele é sua história.

Mas, como alcançar isso se o desejo inicial é antes de tudo, terminar? Como se inicia se a busca é antes de tudo o final? E como posso dizer a esses e a nós estagiários, que já somos filósofos? Mas, talvez seja esse um pedido: esqueça o certificado, apenas aprenda, compartilhe. E, mais, como eu posso te falar que antes de escutar o outro como filósofo clínico é essencial que você tenha se escutado, se visto, se desnudado, senão para o seu professor, inevitavelmente, para si mesmo.

É importante ao filósofo clínico ter tido o medo, receio de se expor, de se abrir, de se mostrar. Saber da tensão e dificuldade que é ser desnudado pelo outro. Ver e aceitar o outro apreendendo dimensões suas nas quais a gente não chega, não vê, não sabia. Aprender a lidar com essa fragilidade. Fragilidade que se mostra no bafão, mas que prossegue além dele, evidenciando que a questão é o hálito.

Finalizando, os seus bafões, seus segredos guardados ainda não é estágio, mas soltar e descobrir o seu hálito e junto a ele coordenar sua autogenia, se perceber como responsável por sua história e não meramente figura decorativa, aí estamos falando de clínica. Ser capaz de compreender a dificuldade de ser quem se é, especialmente, diante do outro, isso é estágio. Parece que o restante é pressa, técnica, obtenção de certificado. 


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