quarta-feira, 21 de agosto de 2013

HORÁcio: a teatralização da vida.



Ontem, 18/8/2013 fui com Primavera ver uma peça teatral- Horácio. A peça aborda as reflexões de um homem em três momentos da sua vida. HORA/CI/O. Esta é uma abordagem comum, acompanhamos esses temas na literatura e no cinema. A novidade é que as reflexões são realizadas por três artistas o que dá a encenação a dinâmica da simultaneidade, da multidimensionalidade. O mais interessante ainda é que embora conflituosos, eles se escutam, não concordam, mas se escutam, estreitando um diálogo entre cada um deles. Na peça não seria nenhum exagero ver nesse diálogo a relação freudiana entre Id, superego e ego.

A peça por si só é boa, não apenas pela trama, mas como essa trama é emaranhada pelos objetos cênicos, no caso espelhos que HORA refletem o próprio personagem, HORA reflete a face de um dos seus outros momentos. Um pêndulo que oscila, malditamente, sem parar, ainda que bem no fundo do palco, imperceptivelmente.

Fato é que as abordagens são inúmeras, desde a que esta relacionada ao tempo cronológico, linear, que caminha para a finitude- passado, presente, futuro- simbolizado, respectivamente por: um jovem que sonha ser poeta; por um adulto que se torna advogado; por um idoso que se encanta e desencanta com a vida e tenta elaborar a síntese, a reflexão final.

Uma dessas reflexões é a traição. O Horácio velho acusa o Horácio adulta de ter traído a ele e ao jovem. De ter matado os sonhos deles virem a ser poeta. A marca dessa traição localiza-se num acontecimento traumático, um acidente fatal que culmina com a morte do pai de Horácio. Mais do que a fatalidade do acontecimento, o drama, o trauma repousa na forma, que segundo o Horácio adulto relata a ordem recebida pelo policial para que ele leve a moça que acompanhava o pai na viagem e deixe o velho, no caso o pai dele.

A partir desse acontecimento, HORAcio muda toda a sua vida. E nessa mudança com inúmeras reflexões sobre a vida, a morte, a finitude, o tempo, que a peça se desenvolve, mas não linearmente, e sim, ciclicamente, já que a reflexão final retoma a inicial, mas agora de maneira mais profunda com o HORÁcio velho, sentado, na verdade, “infartado”, reflete sobre qual a diferença entre morrer na beira da estrada ou com plano de saúde? Interroga a si mesmo e ao seu interlocutor adulto sobre o sentido da vida, naquilo que ela tem de mais pessoal- a própria existência. Se valeu a pena ter deixado de ser poeta, vivido na sarjeta para se tornar um advogado respeitável, quando no final das contas.... o fim chega para todos? A morte é igual para todos, deixando como legado aquilo que fizemos, ou no caso, deixamos de fazer. A grande pergunta, tácita é se vale a pena não vivenciar os sonhos?
Essa é a grande pergunta e é sobre ela que falaremos do espaço terapêutico.

II O eu terapêutico.

Dentro do espaço terapêutico é indubitável que temos muitos eus e não estou falando de vidas passadas. Estou falando desses eus, que a peça HORAcio explora tão bem.


Embora haja, invariavelmente, uma justaposição de um eu sobre outro, muitas vezes, não vemos e nem percebemos esse acontecimento. Nem observamos como que determinadas situações evocam nossa criança, outras, nosso adolescente, outras nosso jovem. Como que pulamos de tempo para tempo tentando alinhavar tudo entorno de uma ordem, de uma coerência que no final da contas não podemos afirmar que existe, a não ser para nossa cabeça. Essa busca cria muitas tensões.

Mais do que tensões, geram conflitos, porque há uma falta de relação e sintonia entre o que eu penso e o que meu corpo sente. Entre a minha experiência sensória e a minha idealização imagética. E de forma geral por desprezarmos o corpo queremos, de todo modo, a todo custo, que a vida se adapte as nossas exigências. Queremos que a vida siga nossas regras, ainda quando o corpo, o outro, o mundo, a vida esteja nos mostrando que estamos em desarmonia.

Os exemplos são milhares tanto pessoais quanto de amigos, conhecidos, de livros, filmes, etc... Mas, vou citar como exemplo um amigo que em sonho se viu casado, noivo de uma menina que não tinha mais do que 13 anos. Por muito tempo, ele quis se ver como pedófilo, mas essa conceituação não era condizente ao momento no qual ele vivenciou a estória, século XIII, XIV. De forma que em nossos deslocamentos trazemos esses olhares descontextualizados e produzimos uma carga imensa, enorme, sobre nos mesmos, quando o sentido seria esvaziarmos desses pesos.

Ainda nessa mesma linha, me recordo de uma mendiga que entrou na lanchonete pedindo alimento, dinheiro. Ninguém deu e eu ofereci um pastel assado que tinha levado uma minúscula dentada. A moça olhou para mim, agradeceu com certo desdém e disse que não comia resto. Eu a compreendi, especialmente, porque no momento no qual ela dizia isso, eu não a via mais como sendo mendiga, eu a via como uma donzela, de pele muito clara, cabelos louros, segurando uma sombrinha, com um chapéu e vestido de renda típico da corte francesa do século XVII, XVIII. Como um negro tem a audácia de dirigir a palavra para uma donzela e ainda oferecer pastel assado mordido? Sei que na lanchonete as pessoas me olhavam querendo se desculpar pela humilhação que eu recebi, mas eu estava super bem. Ela não quis e a vida segue. Para mim, ela está presa a uma imagem dela do século XVIII. Ela esta presa num desses espelhos da existência.

De modo que, terapeuticamente, acredito que seja possível colocar um Horácio conversando com outro, ouvindo o outro, um tomando consciência da existência do outro e curando as feridas e dores do outro. Podemos exemplificar com a dor da menina abandonada aos 7 anos. Hipoteticamente, ela pode ser acolhida pela mulher de 55 hoje. Ela e mais ninguém pode pegar essa menina no colo e a acolher, cuidar dela, mostrar como elas caminham juntas. E a loucura maior é que é essa menina de 7 anos que cura a mulher de 55 do seu medo de ser traída, abandonada, humilhada. É ela que a auxilia a tirá-la do espelho.

De uma maneira que aqui não cabe adentrar, os tempos subjetivos não obedecem a linearidade do tempo cronológico. Todos ao olharem para essa mulher bonita acreditam que ela é uma adulta, que ela tem 55 anos e resolveu suas questões; todavia, a verdade, é que emocionalmente, ela esta estacionada nos 7 anos. Quando o bicho pega, é para esse tempo, para esse lugar que ela retorna. Ela continua se vendo desprotegida, sem lugar, sem saída. Assim como ela, se dá com cada um de nós. Poucos, pouquíssimos de nós têm a idade cronológica atrelada à idade mental, emocional, sexual para falar de meramente três. Esses tempos são outros e muitas vezes não percebemos.

III Atêlie Interior. 

Mas a razão pela qual escrevo isso é que amo a arte. Amo como a arte, o palco, o teatro, a pintura, a escultura, a música, o poema esclarecem aquilo que precisamos de muitas páginas para explicar. Se a peça ficasse mais tempo em cartaz levaria alguns “partilhantes” para assistirem. No diálogo entre os artistas acredito que ressonaria as vozes caladas, massacradas do nosso ser que vamos impedindo de falar. Essas vozes então passam a gritar e ainda assim são ignoradas, assim, elas se distendem e ainda assim não são percebidas, até que elas se separam, aí, geralmente, é tarde para uni-las. Em todos esses movimentos, fica notório, que o tom aumenta quanto menos se dá vazão e escuta a essas vozes. E, em certa medida, todo trabalho terapêutico, consiste em harmonizar cada uma delas. Dar espaço para cada uma delas. Permitir que cada uma delas seja o que elas são.

HORAcio toparia ser advogado, ele aceitou a advocacia, mas o que o matou foi ele não ter dado espaço para o seu poeta. O poeta de Horácio não podia morrer. Talvez, ele não fosse Drummond, nem Castro Alves, mas seria Horácio e isso se não valesse de nada esteticamente, seria a redenção dele, existencialmente. O vazio existencial dele não seria tão grande, tão forte, tão imponente. Bastava, ele ter escrito e publicado os seus poemas, deixado essa energia fluir, permitido essa energia caminhar. 

E esse é o ponto interessante, que durante a apresentação da peça me reportou diretamente a uma conversa que tive com um dramaturgo brasileiro meses atrás. Como não me canso de dizer, os artistas desencarnados continuam suas atividades, mediante, oficinas, palestras, cursos, workshops e outras variedades de facilitação interior. E é muito salutar visualizar como essas oficinas são desdobradas no plano físico. É muito legal perceber essas intercessões entre os dois lados. 

Uma dessas intercessões denominei de Ateliê do Espaço Interior cujo foco sempre foi com os poetas, músicos e artistas plásticos. O trabalho com os dramaturgos é recente, esta em gestação e tenho que afirmar, que terapeuticamente, tem alto impacto na transformação e conscientização das pessoas. A técnica, hoje, amplamente utilizada no plano físico consiste no desdobramento da personalidade da pessoa para que ela se veja representada, encenada no palco da existência. Ou seja, desdobra-se a personalidade para que ela seja projetada, exteriorizada. De modo que olhando para si mesma, ela consegue integrar aspectos, partes que antes andavam soltas, sem lugar.

A peça me remeteu, diretamente, a essas práticas, a essas possibilidades de se auxiliar o outro mediante práticas teatrais. 


domingo, 11 de agosto de 2013

HANNAH ARENDTH na Comissão da Verdade,




Semana retrasada fui com Primavera ver “Hannah Arendth”. Apaixonei-me ainda mais por ela, fiquei ainda mais maravilhado por ela e fiquei pensando uma série de coisas nas quais enumero as principais:

1-      Todo brasileiro, de esquerda ou de direita, que seja favorável ou contrário a ditadura militar tem o dever moral de ir assistir o filme. Digo mais, deveria ser prática obrigatória para quem fosse depor- assista ao filme antes.
  2-            Não se deveria pensar mais a construção do conhecimento sem termos nitidamente a importância de cada interlocutor oculto que auxilia a compor o contexto de uma época, de uma mentalidade, de um imaginário.
 3-            A discussão entorno do OUTRO e da alteridade tende a se constituir, se é que já não se constitui a parte mais importante da filosofia atual e da sociedade de modo geral.
I

Para muitos o filme é cansativo, exaustivo e até a diretora brinca com isso ao falar da inviabilidade de se fazer um filme sobre um filósofo. No filme não há carros em fuga, tiros a esmos e mudanças de cenas rápidas e velozes. O ritmo é outro, respeita-se o tempo interno, subjetivo das reflexões.

E o ponto alto da reflexão do filme se dá sobre a “banalidade do mal”, mais precisamente, sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém. Não é preciso dizer que qualquer nazista depois do fim da 2ª guerra já estava condenado, aliás permanecem condenados até hoje. O que fizeram foi inominável. Foi a mais brutal forma de violência que presenciamos, devido a sistematização racional orquestrada, inclusive por Eichmann e outros. Essas violências são sistemáticas e repetitivas na história da humanidade: romanos lançaram cristãos aos leões; depois cristãos lançaram hereges na fogueira. Como isso era pouco cristãos e mulçumanos fizeram guerra santa, não obstante, em nome da fé e na crença que uma raça é superior a outra mataram índios e escravizaram negros.

Historicamente, após a abolição da escravatura, homens de bem, racionais, acreditaram que algo tão nefasto não mais se repetiria, mas o preconceito permaneceu e permanece ainda. No entanto, sem perder as esperanças, acreditamos que entraríamos em uma era de respeito, qual não é a nossa surpresa ao depararmos com os nazistas que assassinaram 6 milhões de judeus, milhares de ciganos. Ainda acreditando, um pouco mais estarrecidos, quase sem forças, pensamos que o último suspiro do mal foi em 1945. Qual não é a nossa surpresa ao vermos as mesmas brutalidades sendo realizadas nas ditaduras militares latinas, africanas e asiáticas.

Em todos os casos, desde antes de cristãos serem lançados aos leões até hoje quando se assassina homossexual, negros e outros, o que esta em evidência é o desrespeito ao outro. Matou-se pelo outro ser o que ele era. Mata-se por não aceitar que o outro seja aquele que ele é. Eis a banalidade do mal na sua forma mais torpe, mais vil, mais banal. Mata-se, porque não se suporta conviver com o diferente, com as diferenças.

Mas, a discussão que Hannah deseja não é essa. A discussão que ela suscita só se faz mais clara se formos à França visitarmos Sartre. Após analisar o nazismo todos querem entender.... por quê? Mais chocante do que buscar o motivo é constatar que depois de 6 milhões de morte de um povo, sem contar a dos ciganos, a dos homossexuais, a dos deficientes, não havia um único culpado. 7 milhões de mortos e ninguém se responsabilizava. Ninguém era responsável. Como isso é possível?

Se por um lado temos a infantilidade, a irresponsabilidade do outro temos o endemoniamento do mundo, a atribuição de que o que aconteceu se deveu a monstros, a seres fora da história. Nos dois casos temos a banalidade do mal, justamente, por retirar a condição humana dos sujeitos.

Retomando Sartre, justamente por pensar esse mal, que colocando palavras na boca dele, chamarei de absurdo, é que ele desenvolve e amplia a sua discussão sobre liberdade. Liberdade não pode mais ser encarada como uma expressão liberal, de dimensão individual, sem relação e comprometimento com o outro, com a vida, apenas consigo mesmo. Essa percepção egóica, demasiadamente individualista precisa ser revista e revisitada. E nesse novo viés, Liberdade é escolha e comprometimento. Liberdade não é um atributo abstrato, uma condição ideal. Liberdade é uma atitude imanente, situada, por vezes determinada. A liberdade não é um ente solto e vazio, pelo contrário, ela só existe no ser que escolhe, de forma que se há possibilidade de escolha, estamos falando de liberdade.

E se liberdade é escolha, sou livre quando opto, quando elejo, quando escolho. A liberdade esta naquele que escolhe, esta com quem escolhe escolher e até mesmo no que renuncia a escolha. Em todas as situações se é responsável por isso. Ninguém esta isento de culpa seja por ter atirado em um judeu, seja por apenas tê-los colocado dentro de um vagão de trem.

É esse cenário que Hannah nos desenha e que o filme nos coloca que tenta analisar a situação, ou seja, longe de ver Eichmann como um monstro, um ser sem alma, Hannah nos convida a vê-lo como humano, demasiadamente humano. Esse senhor era uma pessoa comum, um sujeito comum, ou como diagnosticou Wilhem Reich- Zé Ninguém. E o mundo estava e esta cheio deles. Pessoas que cumprem ordens sem lidar com a responsabilidade de seus atos. Pessoas que escondem o mal ao não optarem pelo bem. Pessoas que estão prontas a praticar o mal, porque não pensam o seu fazer no mundo, o seu ser na existência. E é diante disso que trago a comissão da verdade.
É dever histórico relembrar, recontar, não deixar esquecer. É dever histórico apontar lados, práticas, métodos. É dever histórico salientar que a história não é neutra, não é dada, mas é uma construção coletiva dos atores sociais envolvidos e inseridos naquele momento. A comissão da verdade busca mostrar que houve torturas, que teve sevicias, que tiveram práticas perversas, maldosas no olhar de qualquer tempo, de qualquer época. E aos que não sabem é preciso que fiquem sabendo, que se recordem, que se lembrem para nunca mais voltar a acontecer. Não se pode dar nome de praças e ruas a torturadores. E a sociedade brasileira tem que discutir isso. Um país não pode fechar os olhos para o que aconteceu. Temos milhares de pessoas desaparecidas. E alguém é responsável por isso, independente de terem agido certo ou errado; não é esse o julgamento. O julgamento é: houve violação do direito das pessoas e o mínimo que o Estado pode fazer já que não vai prender ninguém, condenar ninguém é apontar os responsáveis. E como parte deles acham que agiram certo e que fariam tudo de novo não há motivo para que se escondam, que não queiram lidar com o que fizeram.

II

De certo modo, eu já caminhei para dois ao falar de Sartre, Nietzsche, Reich. No entanto, não posso perder de vista, Heidegger e Levinas.

Thomas Kuhn pensa a ciência como um quebra-cabeça, deixando claro que não temos todas as peças. Com isso, ele quer salientar que o conhecimento científico é uma construção, não nasce pronto. Essa percepção que já era cara as ciências humanas adentrou o universo das ciências duras, hoje não se discute ciência sem pensar nas várias interlocuções. Um cientista, ainda que gênio desenvolveu e estabeleceu diálogo com o seu entorno. E esses diálogos são essenciais para a compreensão de qualquer conhecimento.

Vendo o filme é formidável as rodas de conversa, as tensões estabelecidas entre os envolvidos. Quando adentramos historicamente podemos ver como que a partir de um professor em comum- Heidegger- Levinas e Hannah discutem sua obra. Obras que somos convidados a ler como sendo autorais, biográficas, particulares, mas que durante o filme me veio a intuição de que o pensamento de cada um deles, acompanhado de outros tantos conhecimentos compõem uma obra única. Sendo mais claro, a obra de Hannah adentra na de Levinas, que adentra na de Simone de Beauvoir, que se estende na de Sartre, que desemboca em Reich e não se esgota e se renova em Hannah, reiniciando um novo ciclo que nos permite vê-los como discutindo a mesma coisa, cada um com um ângulo específico, mas que são peças do mesmo quebra-cabeça.
Espero que consigamos formar esse espectro de uma época o mais rápido possível, libertando o conhecimento de suas amarras individuais de forma idêntica cada um desses pensadores libertou o conceito de liberdade da sua dimensão individualista.

III

De certo modo a história da filosofia tem sido a filosofia histórica do eu, do masculino, da identidade, da igualdade. Essa história não vai mudar, talvez não deva. O importante é saber que correlata a ela tem uma filosofia histórica e uma história da filosofia que trata do outro, do feminino, da alteridade, da diferença. Essa filosofia precisa de lugar não na academia, mas dentro de nós. Essa Filosofia que tem no respeito a sua grande marca, que tem na tentativa de compreensão do mundo, o outro como ponto de reflexão. Essa face, esse rosto que Levinas nos informa. Precisamos disso cada vez mais, especialmente no nosso país que murmura saudades da ditadura, acirra-se o patrulhamento aos homossexuais, amplificam-se nos parlamentos os discursos fundamentalistas religiosos e matam-se jovens negros por serem pretos demais para existirem.


Ver Hannah, ler sua obra, discutir suas idéias podem ser de muita ajuda e valia.