sexta-feira, 20 de maio de 2016

OLIMPÍADAS E DEMOCRACIA: a gente se vê por aqui.


Eu estava indo para uma reunião mensal de caráter espiritualista que promovemos quando vi a organização das ruas para que a tocha olímpica passasse. Nisso um amigo me relembrou a frase: “O importante não é vencer e sim competir!” 

Essa frase nunca me fez sentido dentro do campo de futebol, ou de qualquer outro locus de disputa. Todo atleta entra na arena para vencer, para ser o melhor e nas palavras de Mike Tyson: “o segundo lugar é a mesma coisa que o último.” Para o atleta só vale a vitória, embora a medida em que vamos aprofundando o nível da disputa, vamos reconhecendo que toda luta desportiva é para superar-se e aprimorar-se.

Logo, por intermédio do amigo percebi que o sentido dessa frase é política e não esportiva. Esportivamente, queremos vencer, vencer, vencer, porque esse é o nosso ideal. Honramos o nome de Minas no cenário esportivo mundial. Mas, no cenário político não pode se ter vitórias a qualquer custo, a qualquer preço, sob qualquer pretexto. De forma que a partir dá frase veio o desfilar de imagens em minha cabeça e pela 1ª vez compreendi que o contexto, ou aplicação dessa frase não é esportiva e sim política. É o que tento demonstrar nesse post, mas antes vou percorrendo caminhos filosóficos e teatrais, vem lendo comigo e ao final deixe seu comentário.



OS GREGOS

Ahhh, os malditos gregos!! Entre eles uma coisa eram muitas. Tudo tinha símbolos e profundidades cada vez maiores. Era um universo repleto de metáforas e significados que se aprofundavam ao mesmo tempo em que se expandiam, iam da raiz ao cosmos em tudo que faziam.


O teatro, por exemplo, era a um só tempo diversão, como um ritual sagrado, uma catarse coletiva. Nele os cidadãos expurgavam suas dores, ao mesmo tempo em que os artistas com suas personas personificavam situações, seres, atos. Essa é uma condição complexa que os governos e as pessoas autoritárias dificilmente compreenderão, a saber, essa capacidade da arte em ser nada e dizer tudo. Olha o Marcos Feliciano que não consegue compreender o papel de pastor que ele representa, porque simplesmente não é capaz de ser e se deixar ser vivificado pela ritualística cristã que ele encena. Ele não vive Cristo, por isso adultera Jesus. Cospe na cara dos fracos, zomba das torturadas. Mas, vamos a outro exemplo do mundo grego:

A praça era a um só tempo locus das discussões políticas como também espaço das interações pedagógicas. Em verdade, entre os gregos muitas das coisas que seccionamos, dividimos é para eles era um todo quase que indivisível, por exemplo: Polis + ética = política.














Entre eles era impensável a distinção entre política e ética. Como era também impensável a propositura de leis que tivessem o caráter punitivo antes de ela ser pedagógica e instrutiva. Afinal, como punir aqueles que não educamos?  E como considerar educado aquele que desrespeita a lei que ele mesmo criou? Em outros termos, como se reputa político aquele que descumpre as leis da Pólis? E, como podemos aceitar que permaneça entre nós aqueles que criando as leis que regem a cidade a desrespeitam para satisfazerem-se e locupletarem-se?

Entre os gregos isso não era tolerado. Entre os gregos havia o exilíio, a pena de morte e as insurreições contra os malditos que usavam da cidade como se ela fosse a sua casa. E, podemos vislumbrar cada uma dessas ações tanto nos diálogos platônicos quanto em algumas peças teatrais.

APOLOGIA DE SÓCRATES



Num primeiro momento temos a Apologia de Sócrates quando o mesmo é levado ao tribunal por cidadãos da cidade; tudo bem que de caráter duvidoso, mas cidadãos que alegam que o velho filósofo estaria seduzindo os jovens ateniense e ensinando sobre a existência de outros deuses. A defesa do eterno pai da filosofia é um show, mas os jurados o sentenciam a pagar 30 moedas. Sócrates filho da cidade, legislador, olha para os seus concidadãos e deixa claro que caberia apenas uma sentença: ou ele é inocente e assim não deve pagar nada, pelo contrário, deve receber até retratação dos seus algozes; ou ele é culpado e deve receber a pena máxima- a morte, como reza a lei que ele formulou e segue.

Séculos depois alguns comentaristas veem uma intransigência socrática, afinal seus discípulos, amigos, todos disseram que pagariam para ele a quantia e ele voltaria à praça. Mas, para Sócrates o que estava em jogo não era apenas o seu nome e sim toda cidade, toda organização política e social. Imagine se cada cidadão começasse a entrar com processo de impedimento para cada governante que cometesse pedalada fiscal? Desculpem, entusiasmei.

Imagine se cada tribunal acolhesse e acatasse com finalidades espúrias pedidos de impedimento de legislatura? Mais precisamente, imagine se os signatários da lei a descumprissem em comum acordo e a aplicassem somente quando conveniente? Essa leviandade geraria um profundo sentimento de instabilidade, afinal a qualquer momento, por qualquer motivo, a maioria pode castrar, suspender os meus, ou seus direitos, o direto de qualquer um, por qualquer motivo. É essa clareza, que Sócrates nos deixa na apologia, mas ele nos ensina mais. Ele nos ensina que não há indivíduos acima da lei e que nenhuma lei pode perder o seu sentido original e primário de ser justa. Ele nos ensina que acima da legislação há a justiça e se a primeira pode ser flexibilizada, a segunda é imóvel. Com sua venda nos olhos, com sua balança numa das mãos e a espada na outra, ela equilibra e corta. Esse corte é a tudo aquilo que ultrapassa o que para os gregos é fundamental: a ordem, o cosmos, o equilíbrio.




Mas, essas observações se aprofundam em Críton e em Fédon, outros diálogos socráticos.

CRÍTON

Em Críton, o jovem discípulo chega feliz e saltitante, dizendo ao seu mestre e amigo algo como: “já subornei o guarda da noite. Já contratei a embarcação que te conduzirá até outra cidade. Lá os nossos amigos estarão te esperando para que tu vivas feliz!!”
Sócrates olha entre consternado e decepcionado para seu amigo e pergunta: “você não entendeu nada do que ensinei na praça por todos esses anos?”

É similar a Pedro no alto da montanha cortando a orelha do centurião e Jesus olhando e dizendo: “aquele que é pela espada, perecerá pela espada!” E, pegando parte da orelha do moço, recoloca-a no lugar.


As mensagens dos mestres são assim em atos, em diálogos e o que Sócrates estabelece com Críton diz respeito às leis, as regras, as normas, ao dever. O velho filósofo explica como que ele que lutou contra a tirania, como ele que defendeu a democracia, que ajudou na criação das leis de Atenas, agora que as leis o julgavam, como ele poderia fugir? Como ele poderia após ter vivido mais de 70 anos sob as leis de uma cidade, tendo visto grandes homens nascer e morrerem, simplesmente, abandonar tudo e pedir exílio em outra localidade? Não, ele não poderia. Ele responderia e acataria as leis que a sua cidade-estado criou. Ele aceitaria a pena capital, a própria morte, mesmo ela sendo aplicada injustamente no seu caso. De todo modo, o velho filósofo não concebia pagar a injustiça com injustiça.

Eu não era discípulo de Sócrates, fosse eu teria proposto a guerra civil. Como Pedro partiria para ação armada dizendo entre gritos e atos: “no mestre ninguém toca!!” Mas, tanto Sócrates, quanto Jesus e tantos outros mestres acreditam que essa vida é apenas uma passagem, um momento, um instante. Sendo assim, não se prendem ao corpo, não se agarram a uma vida sem sentido, sem valor de ser vivida. Buscam significar a existência sendo o melhor que podem. E, como corromper aquele que sabe o valor da própria alma? Como cooptar, seduzir aquele que sabe o valor da sua honra? Como amedrontar aqueles que sabem que são eternos? E, como hipócritas podem aceitar, tolerar aquele que lhe é diferente e os ameaça? Não conseguem. Os amigos escolhem a traição, os mais distantes, o silêncio, os opositores a cicuta, ou o impedimento. Longe de comparar Dilminha com esses dois seres maiores da história da humanidade, mas não posso deixar de reconhecer que ela em seus atos e comportamentos busca representa-los, os encena com grande inspiração.

No entanto, o exemplo que temos de guerra civil fica mais clara não na história e sim na tragédia, pelo menos é o que Sófocles nos conta primeiro em Édipo e, sobretudo em Antígona.

ANTÍGONA

A história de Édipo é mais famosa e clássica, mas a tragédia do seu erro, como não poderia deixar de ser diferente em Sófocles, entra em sua família, penetra em toda cidade.

Édipo teve 4 filhos-irmãos com sua mãe, Jocasta. Após o exílio do pai, os filhos estabelecem o acordo de revezarem-se no poder anualmente. Só que o maldito Éteocles no fim do seu mandato não quis tirar o anel de Sauron dos dedos. Seu irmão toma outra atitude ainda mais exagerada e descabida, recorrer à cidade rival, ao exército rival para invadir a cidade natal e destituir o irmão. Na luta insensata pelo poder os dois morrem e o poder cai nas mãos do Cunha, ou melhor, de Creonte.
Por enquanto, nada de trágico, ou muito trágico. A tragédia começa quando Creonte tio dos fraticidas assume o poder e no seu 1º ato impede que Polinice receba os rituais fúnebres. Ele não permite um cidadão, na verdade, ele não permite um ser humano ser enterrado e entre os gregos caso isso não aconteça estaríamos diante de uma alma penada. Para Creonte o corpo morto deveria ficar largado na rua como o de um bicho e isso revolta Antígona.
Ela não toma partido na briga fratricida e nas legislaturas e propositivas masculinas, mas a barbárie de não permitir o corpo do seu irmão de ser sepultado, isso ela não consegue deixar passar.




Antígona nossa heroína não aceita essa sanção. Ela compreende o erro do irmão, ela legitima o poder do tio, mas ela não pode aceitar que uma regra humana seja maior do que uma divina. Ela não pode conceber que o direito da pessoa possa ser restringido pela convenção humana. Ela enterra o irmão escondida. O governante, que vai se transformando em déspota diante da intransigência, não cabe outra solução a não ser punir o culpado, independente de quem seja.

Deveria falar mais da tragédia, mas indico a leitura da obra e caminho para o final dizendo que Ismênia irmã da heroína morre, Hemon filho de Creonte e marido de Antígona morre, Eurídice esposa de Creonte se mata ao saber da morte do filho.

ACENDENDO A TOCHA

E agora, ainda vivos, podemos retornar à chama olímpica. As cidades estados gregas eram muitas, com muitas regras, normas. Conhecemos mais a de Esparta e Atenas, mas, os gregos como toda comunidade humana é repleta de tensão e conflitos. Os jogos olímpicos na Grécia tinham aquela representação de ser algo simples, banal, sem sentido, mas repleto de significado e simbolismo.


Os jogos representavam entre muitas outras coisas um momento de reflexão, não meramente esportiva, e sim acredito eu, que política. Era ali durante os jogos, em uma cidade vizinha, possivelmente rival, que discutia-se política, estabelecia-se tratados, conseguia-se armistícios, parava-se guerras e contendas. 

Os jogos olímpicos, longe de serem apenas atividades esportivas, festivas eram um momento de plena reflexão acerca da paz e da guerra. Eram nos jogos olímpicos, que cada cidade estado transformava os seus representantes em defensores da sua polis. Essa defesa em si mesma já era uma honra. Uma honra que igualava o vencedor dos jogos a condição de herói e igualmente demarcava a posição ilustre dos demais competidores, já que sem eles não haveria a honra da competição e da vitória. 

Moral da história: o barão de Coubertin imortalizou uma frase: “o importante não é ganhar e sim competir!”

Na seara política é a competição que efetiva e concretiza o jogo democrático. É no respeito a esse jogo que se faz fundamental que o derrotado aceite a derrota para que o próximo jogo aconteça, que o vencedor valorize o seu opositor para que haja uma próxima disputa. Há aqui uma dialética, uma disputa, uma busca por superação que aprimora-se ao mesmo tempo que se aperfeiçoa o jogo. 

Quando o derrotado insufla seus eleitores afirmando que a vitória do grupo rival foi desonrosa, ou ilegal, enseja-se a guerra civil. Quando os vencedores tripudiam daqueles que venceu enseja-se um sentimento de que no jogo vale a vitória a qualquer custo, sob qualquer termo. E, esses golpes não valem nem no esporte e menos ainda no mundo da política onde cada gesto envolve milhares de pessoas e seres. 




Assim, parece-me fundamental que reconheçamos o valor da tocha olímpica e dos jogos olímpicos, que ela possa nos dar o que os gregos conheceram e ensejaram: o respeito às regras do jogo, o respeito à democracia. O valor da paz e o peso trágico da luta fratricida entre irmãos pelo poder.


De modo que essa tocha, com sua luz, nos traga a chama da vitória, do respeito, da tolerância. Nos permita honrar cada adversário com o melhor de nós, sem que tenhamos que burlar ou condenar uma pessoa por um crime que ela não cometeu.

Na política, competir é mais significativo do que ganhar, porque nela a regra da polis mantem-se intacta. Porque a democracia é maior do que os competidores. E, não se tolera ou se admite que alguém por motivos lindos, tirânicos, ou escusos a alterem.

É somente respeitando a competição que todos vencem, ou melhor, que a insatisfação do perdedor não coloque em cheque todo o espírito esportivo que flameja na vida política, econômica, social. 

Enfim, na preparação que se fazia para a passagem da tocha, meus amigos espirituais ensejaram um pedido para que esse fogo aceso, passando de cidade em cidade, de Estado por estado, de mãos em mãos vá acendendo em nós essa luz da esportividade política. O respeito a soberania das urnas, do voto. 

Enfim, que o fogo olímpico acenda a chama cristica e consciencial daqueles que julgam ser políticos, mas desrespeitam as normas da polis, as regras do jogo para beneficio próprio. 




quarta-feira, 6 de abril de 2016

EMPODERAMENTO E AUTONOMIA: a história da DEMOCRACIA.

Semana passada a democracia me visitou. Entrou em meus espaços mentais e me contou sua história, sua própria trajetória de luta. Mostrou-me sua face ao longo do tempo, seus defensores ao longo da história e devo dizer que fiquei emocionado. A DEMOCRACIA é uma das musas mais lindas que já vi. Terna, paciente, perseverante. Tombou várias vezes, foi derrubada outras tantas, torturada, mas nunca deixou de percorrer o seu caminho, de ir em busca da sua meta: a autonomia dos sujeitos.

A democracia nunca se calou, embora por diversas vezes somente alguns ouviram a sua voz, misto de murmúrio e suplicio. A democracia é diferente, em tempos brandos, ela praticamente fica muda. É em tempos de crise, quando os outros se calam, que ela grita, esbraveja, luta. Nesses momentos, ela fica indócil e indomável. Nessas horas, eu tive muito medo, nunca vira tanta bravura, ninguém tão destemido por lutar e defender o direito de todos terem voz.
Ela foi torturada ao longo do tempo, ela fora, desrespeitada ao longo do tempo, mas junto com a sua irmã esperança, jamais esmoreceram.

I

Mas, como dizia, ela me visitou e contou-me sua história que desisti de contar na forma que pensei. Vou contar à maneira dela, como ela mais ou menos me disse.
Primeiro, ela chegou vestida de verde-amarelo, mas logo falou: 
“minhas vestes vermelhas são para momentos delicados e especiais. O vermelho é meu traje de guerra. Uso quando querem me vilipendiar.”
Sorri encantado, para essa dama madura. E ela prosseguiu:
O que quero, o que busco, o que iniciei lá atrás nas tribos africanas, o que vos chegou inadvertidamente pelos gregos. O que espero e vocês herdaram a parte sombria dos romanos é o que nunca permitiram, mas agora temos mais do que ontem: EMPODERAMENTO.



O que? Perguntei a ela como sem entender as críticas aos queridos gregos. Mas, ela suave e habilmente me contou:

Eu preciso estar na prática de todos. Eu preciso estar no coração de todos. As crianças quando sorrirem devem silabar meu nome e os anciões quando derem o último suspiro, devem exalar nossas tramas para outras gerações. E, nunca consegui isso como agora. 

Nunca, consegui fazer com que os diferentes tivessem a mesma voz e eles se falassem.

Nos púlpitos gregos somente os iguais se diziam e nas tribunas romanas, os diferentes eram lançado aos leões. Mas, hoje, a prostituta pode falar com a freira e ambas serem ouvidas. A mulher pode questionar os métodos masculinos e ser escutadas. Os negros e índios não serem convertidos ao discurso dominante, exceto alguns raivosos e com sobrenome de marca. Os gays assumirem suas preferencias tais como os heteros.
Nunca estive tão presente no mundo. Nunca tivemos tantas vozes falando ao mesmo tempo.
Não, eu não me incomodo que as vozes não tem muito o que dizer, porque o que me ocupa é justamente, as chances que elas tem de falar. E que bom que falem.

Então, você apoia o golpe? Fui logo concluindo como argumentam os salgadinhos algumas vezes. Mas, me justifico, tive que perguntar, porque pensei que estava diante de um embuste. Pensei tratar-se de um espirito zombeteiro e não um atributo soberano e magnânimo como a democracia. Mas, ela logo foi esclarecendo:

Muito longe disso!! O único golpe que apoio é o do vento que sopra todos os seres para a aceitação da diversidade, da multiplicidade, da interdisciplinaridade. O único golpe que apoio é o que nasce da vontade de golpear aqueles que me atacam, ou desejam me ferir. Não, não pode ter golpe.

Ela disse isso entre lágrimas, emocionada. E, eu impiedoso, não contra a sorte democrática, mas contra lágrimas ou surtos janainicos, logo questionei: Impecheament não é golpe!!!

E quase abri um sorriso, desses de lagarto, desses de canalhas, que querem parecer inteligente com sofismas tão pueris e baratos. E, ela me dando uma aula de constituição, desde os gregos, passando pela jurisprudência latina, enfatizando a tripartição dos poderes frânces, a legalidade alemã e a tão má interpretada guinada americana, me disse sorridente, mas de forma enérgica:

Não use de sofismas, medíocre filósofo. Sabes como pouco o que é ser impedido de... Tu como negro, ela como mulher, outros como gays, tantos como pobres, sabem muito bem o que é ser impedido como se fosse regra natural e divina do jogo da existência. E, não me venha com chorumelas afirmando que não se trata disso, porque eu sei bem do que se trata. Trata-se do que sempre se tratou. Trata-se daquilo que lhe disse acima e que não podem impedir, não poderão, não passarão. Trata-se do meu empoderamento. Trata-se de negar isso a todos. Trata-se de demo nizar o povo. Trata-se de achar que pode-se continuar falando e pensando por aqueles que agora querem pensar e falar por si mesmos, do seu modo, de seu jeito.

Sim, os heterossexuais não podem continuar falando pelos homossexuais. Os brancos não podem continuar falando para e pelos negros e índios. Os adultos não podem mais fazer ouvidos moucos aos jovens, adolescentes e crianças. Os ricos não podem mais falar para os pobres. É preciso que aceitem a diversidade e a polifonia das vozes. É necessário que compreendam a autonomia dos sujeitos.
Afinal, acreditam que depois do golpe, 54 milhões vão se calar? Acredita-se que eles não têm mídias sociais? Acredita-se que todos os jornais e jornalistas são favoráveis a esses desmandos? Acredita-se que prenderão todos esses que se oponham? E que os calarão, os proibindo de mandar mensagens? Postarem vídeos? Enviar e-mails? Escreverem cartas? Fazerem música? Reunir-se em praças? Marcharem sobre as cidades? Fazer teatro? Escrever poema? Acreditam que calarão as pessoas no século XXI? Pensam mesmo que estamos em 1964 e temos uma operação Condor? Vós que pensais isso, me subestimam por demais. Não viram a Primavera Árabe? Não viram Ocupe Wall Street? Não viram e não participaram no não é por 0,20 centavos? Não viram as manifestações antes da copa em vosso país? Não assistem e não viram os jovens chilenos, franceses e paulistas? Como ousam me subestimarem tanto?
Vocês não entenderam. Eu vim pra ficar. Eu sempre estive e esse é o meu momento. Esse é o meu tempo, mas os tempos futuros serão ainda mais belos e mais lindos. Vós outros, não passarão. Vosso tempo chega ao fim.

Vós que usas do poder para controlar as mentes e as pessoas, colorindo o céu de medo. Vós que faz da tribuna um balcão e das suas colunas e matérias negociatas àqueles que podem pagar-lhes pela distorção e silêncio. Vós que fazendo uso do maior dos meus lideres, o mais belo de todos eles, pastoreia as ovelhas que são dele e não vossa as conduzindo para intolerância politica, religiosa, sexual... VÓS NÃO PASSARÃO!!!! E malditos seja vosso nome!!



Mas, a vocês outros que clamaram por justiça, eis que vos torno, lhes trazendo as mídias capazes de lhes dar voz, de se fazerem escutados, atendidos. Por vocês, eu sou, eu estou, eu permaneço. Eu sou a democracia e caminho ao longo dos tempos e das eras. Abram as portas da sua vida, as portas da sua casa, do seu trabalho, da sua congregação religiosa; eu estou impregnada na mente de muitos e no coração de valentes.

Agora, quem chorava era eu. Como menino que tem utopia de igualdade, de fraternidade, de liberdade. Chorava, enquanto ela me pedia: 
você também tem seu papel, dê o seu grito, mostre a minha voz.

E eu vim fazer isso. Dar voz a sua voz. Dar voz a voz dela, que grita de forma indignada dentro de mim. Deixar que a democracia fale em mim, comigo, em nós, conosco e por nós. Pedir que nos façamos mais democráticos em nossas relações.

Depois conto a outra parte da história quando Sócrates, Platão, Montesquieu e Foucault chegaram para conversarmos, mas isso fica para depois.

Por agora bastaria dizer: NÃO VAI TER GOLPE. ESTAMOS NA LUTA!!!



quarta-feira, 23 de março de 2016

FORA DA DEMOCRACIA NÃO HÁ SALVAÇÃO!

Gosto da astrologia. O estudo dos céus nos desvela significados ocultos, profundos. Meu coração olhou para as estrelas e viu nelas uma configuração bem similar a medieval. Há muito tenho visto e acompanhado o movimento desse céu em nossas ações, pensamentos, reflexões. Ao mesmo tempo em que se abre um céu com muitas possibilidades, outras configurações se desenham fechando e obstruindo mais avanços. Essa obstrução não é outra coisa senão o medo.

Sim, é o medo do novo, o medo do progresso, o medo dos avanços, o medo do diferente, das diferenças que travam o fluxo do novo. É claro que todos nós tememos o novo, embora o esperamos. É claro que falamos em ressurreição, mas tememos a morte. 

E essas contradições intimas dá força para grupos que gostam da permanência, da imobilidade, da estratificação, seja ela social, econômica, espiritual. Diante de avanços, mínimos que sejam, eles se mobilizam com exércitos para criar dificuldades.

O que dizer a eles? A nós? Direi que o amor sempre nos conduz para paisagens mais belas e melhores. Direi que deixar-se conduzir pela luz do amor é melhor do que direcionar caminhos estando no escuro e reinando nas trevas. E isso é o barato das conjecturas, os seres escuros, movendo-se nas sombras, acreditam que estão levando as situações, os seres, para onde eles desejam, mas quando a gente acende a luz, percebemos que fomos para onde o amor já tinha nos chamado. Os indivíduos, os povos, os grupos, as nações não conseguem alterar esse movimento, alterar esse fluxo. A luz é uma constante, um encontro marcado. Não fugimos disso, sendo assim deposita o seu medo nos pés do seu terapeuta, da sua esposa, do seu marido, do seu Deus. Tire o seu medo das sombras e permita-se dar um passo.


Não, seu filho não vai virar homossexual por verem dois homens casados civilmente. Não, você não vai dar todas as suas propriedades porque abraçou um sem teto ou sem terra. Não, você não vai perder sua riqueza caso os comunistas permaneçam no poder. Não, não iremos embranquecer o movimento negro caso um louro sente-se conosco. Não, não iremos virar coxinha caso tomemos Coca Cola com nossos filhos. Não, não iremos ser pelegos casos compreendamos a dificuldade de gerar e manter empregos do patrão. Não, não iremos deixar de ser quem somos caso escutemos, olhemos e abracemos o outro, o inferno (Sartre), o diferente de nós; o não eu. Mas, sim, podemos ser melhores.


E, a melhor forma de sermos melhores é na democracia. Na abertura de possibilidades, de ideias, de diversidade, do dissenso e do consenso. Não temos salvação fora da democracia e do jogo democrático e é tirano todos aqueles que brincaram no jogo e quando perdem e por perderem propõem o fim do jogo, apelando para novas regras. Golpistas, não passarão. 



domingo, 20 de março de 2016

OBSESSÕES COMPLEXAS E COLETIVAS: discutindo política espiritual.


Dia 17/3/2016 recebi e repassei uma convocação para mentalizarmos e pedirmos oração ao nosso país. Estava e está um momento tão denso, tão complicado, que entrei na vibração marcada às 21:00 horas.

O que eu vi me deixou apreensivo, em verdade, já estava apreensivo, apenas fiquei mais. E, durante todo o tempo que via algumas imagens que eu não sei INTERPRETAR, eu ficava pensando: minha alma vira à esquerda, caminha à esquerda, é quase gauche, como fazer? Explico a pergunta e dúvida, a questão. Não há neutralidade, nem jornalística, nem opinativa, nem judicial, nem mediúnica. Nessa esfera, como nas outras, a gente aumenta a nossa passividade, dá condições do ser que comunica se expressar o mais claro possível, isto é, mais ele. No entanto, ele fala por nosso intermédio, utiliza desde os nossos arcabouços cognitivos, afetivos até de nossa corporeidade. Ainda quando não há o mínimo contato, tudo se faz por telepatia, é ainda o meu filtro, o meu arcabouço, que vai dar voz, imagem ao recebido. Isto tem que ficar claro, para que não acreditem completamente que a mensagem do pastor, do médium, do jornalista, do juiz, favorável ou não, é isenta e neutra. Os demarcadores da isenção e da neutralidade são outros, por isso a defesa da democracia, por isso a defesa da República, por isso a defesa da divisão dos três poderes, para que nossas subjetividades mais intimas, pessoais, singulares e por tudo isso, acertadas, tenha outro filtro. A da republica é a CONSTITUIÇÃO. A dos religiosos cristãos é JESUS. Daí acreditar que ele defende a pátria, a família e a propriedade é um avanço subjetivo, coletivo. Mas, podemos defender, alardear, tomando o cuidado de não acreditar que estamos a mando do Sr Jesus Cristo. Já vimos as cruzadas, já vimos a idade média, nós sabemos como isso acaba, ou o que essa convicção sem desconfiar da própria convicção gera e produz. Não podemos cair nisso em pleno século XXI

I

Falava com uma amada-amiga de como uma grande parte de espiritistas e espiritualistas estavam desde a 1ª eleição de Lula soltando fogo pelas redes sociais. Como que cada um deles em sua maioria se transformavam, se alteravam, ou se mostravam radicais, intransigentes ao governo petista. E, eu sempre fico querendo compreender, fico querendo saber o que eles sabem que eu não sei? O que eles veem que eu não estou vendo?

Assim, antes de escrever sobre esses fatos eu fui procurar dois expoentes que eu gosto demais, tenho imensa simpatia e admiração por tudo que são e representam: Marilusa Moreira Vasconcelos e Robson Pinheiro. Vi que o Robson tem até psicografia de Tancredo de agosto de 2015 e um pronunciamento mais recente no qual ele se posiciona belamente. Tá, não tão belamente assim! rsrsrs. Mas, belamente, no sentido de marcar posição, de ir às ruas, de chamar o povo às ruas e também por captar o mesmo que eu captei, só que eu não me atrevo a dar nomes, INTERPRETAR como ele fez.

https://www.youtube.com/watch?v=3F9WjsFqgRM



E não me atrevo por qual motivo? Porque aprendi com o tempo a não personificar energia. Nada do que ele diz é irreal, mas as considerações que ele realiza vão até onde ele alcança. Isso é com todos nós. “Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo.” Assim, falo apenas da minha aldeia, sem pretensão de que esse discurso seja geral e universal. E, desconfio, embora acredite, que muitos conseguem ter essa visão mais universal. Uma observação:

a distância entre a minha percepção mediúnica e sensitiva e a do Robson é daqui a Saturno e a distância entre a minha e a da Marilusa é daqui a Alfa Centauros. Não tem comparação no que se refere a capacidade, experiência, serviço prestado e qualquer outras que desejarem. Eles estão muito, mas muito a frente.  Então, porque eu vou discutir? rsrs

Porque eu sou da filosofia. Porque eu quero aprender. Porque eu acho que é fundamental trocarmos. Porque é importante deixar claro que não há neutralidade. Seria fabuloso sermos capazes de colocar o mundo entre parênteses (époche) e darmos um despacho- seja jurídico, jornalístico, mediúnico. Não somos. A mensagem que passa por nós leva um pouco da gente. Não há neutralidade. O juiz que declara voto a Aécio, que acusa um partido de petralha, por mais que ele deseje a neutralidade, ele está enviesado; o inverso é reciproco. E, como cada um de nós tem uma intencionalidade o que nos salva e nos redime é a transparência e o se pautar por um norte claro, no caso do judiciário a Constituição e os códigos da lei. No caso de nós médiuns a desconfiança que mesmo sendo a declaração de uma entidade, de um terceiro, ela passa por nós e fisicamente, espelha a nossa concepção, seja por sintonia, seja por vibração.

Sendo claro, eu tenho dúvidas, muitas dúvidas se eu ao receber uma mensagem do ACM não vou dar a ele uma guinada à esquerda, ou pior, vou fazer com que ele se envergonhe e assuma culpas de ações que ele não sente. O inverso é reciproco. Meu amigo Tancredo a quem tenho imensa estima não diz nenhuma mentira em sua análise, mas eu não ouso colocar rosto naquilo que ele diz, embora na mensagem tenha. E, das últimas vezes que tive notícia de Tancredo, isso faz mais de duas décadas, ele estava preocupado com seu neto. Não sei se a preocupação diminuiu, ou aumentou. Sei que o menino Aécio sempre nos preocupou. A mim de uma orientação mais a esquerda. A mim que compreende os desígnios do alto em dar a possibilidade da reencarnação em grupos adversários para a evolução de todos, individual e coletiva. Aclarando, até onde eu sei, Aécio não fez parte da luta no século XVIII pelos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade; pelo contrário, lutou com unhas e dentes, extremamente afiados, contra nós. Mas, renasce no seio de uma família tradicional, de uma família na qual há ligações karmica e quiçá genéticas com os inconfidentes. Tancredo fora um inconfidente e tem nosso apreço e respeito. Mais do que isso, Tancredo organiza, auxilia no processo de transição de dois governos, o que dá o golpe, o que faz a abertura. A posição de Tancredo, a sua mensagem é emblemática por tudo isso, mas especialmente, por ser um grande politico e um grande articulador.

Onde quero chegar? Nas imagens que eu vi e nas representações que fiz e não sei sua correspondência com a realidade dos fatos. Nesses momentos os fatos são importantes para que cada um chegue a uma conclusão.

II



É fato que é um momento denso, complicado do nosso país e não precisa ser sensitivo, médium para perceber. O clima está pesado, sente-se nas ruas, nos olhares, nas mídias sociais, nas conversas entre irmãos.

No Brasil nós não ‘conhecemos’ esse clima. Essa tensão e apreensão no ar. Como diz o artista: “o silêncio que antecede o esporro!” Não conhecemos entre aspas, porque aqueles que saíram das senzalas e habitam as favelas sempre sentiram esse clima no ar. Para uma parcela da população do nosso país a única coisa nova é que agora o escarnio e o insulto é publico. Destila-se o ódio aos negros, aos pobres pelas mídias sociais, sem nenhuma reserva. Mas, o homossexual sempre sentiu esse clima, nós negros sentimos esse clima, os pobres fora de seu espaço natural, sentem esse clima. Quando a policia se aproxima, sentimos esse clima, quando tem que se procurar o posto de saúde, sabe-se desse clima e ele é tão denso, tão hostil, tão pesado, que a arte, o esporte é uma forma com que os caras a transmutam. A outra é pela violência, pelo sangue, pela morte. Mas, de modo geral, esse ódio nunca veio a superfície, somos cordiais.

III


Eu via nuvens negras, pesadas, sem forma, mas opressoras, opressivas. Elas não faziam nada a não ser movimentarem-se e a medida que movimentam afetam, transtornam, desesperam, enlouquecem. O que ganham com isso?

A gente fala da era de aquário e achamos que a era dourada irá e iria acontecer como um passe de mágica. Não, há resistência, há luta, há uma última tentativa de resistência. Eu acredito até que esse seja o último hálito do mal. Não que vai acabar a maldade, mas é que algumas forças estão sendo retiradas, conduzidas para outros orbes, mas o estrago que eles vem causando é imenso. Sabe ato de desesperado que tenta levar o máximo de pessoas consigo? Pareceu-me muito isso.

A visão de muitos colegas sensitivos e médiuns é a de que há uma obsessão complexa sobre o nosso PAÍS e que Lula, Dilma, os petistas de modo geral representam e simbolizam essa nuvem que descrevo, que eles são alvo e canal dessas forças. Eu como médium, filósofo tenho que discutir essa interpretação. Será mesmo? Posso estar enganado? Por que essas interpretações diante de um governo de ‘esquerda’?

Sendo claro, eu poderia ver nessa nuvem Aécio, Alckimim, Serra, Richa, Cunha, Bolsanaro e tantos outros. Mas, energeticamente, aprendi numa psicografia sobre drogas, que não posso. Ou melhor, pode-se, mas é ingenuidade, muitas vezes, um olhar apressado, ansioso, buscando um fechamento para algo que irá se definir daqui a pouco. 

Na psicografia sobre drogas compreendi que o tráfico não é de coca, ou de maconha, o tráfico é de ectoplasma. É pelo uso do ectoplasma que se dá toda forma de manipulação, dominação, subjugação, livramento e cura em nosso planeta. Os grandes manipuladores desencarnados e que se recusaram outra reencarnação (chato mesmo) estão sendo convidados a se retirarem do planeta, mas antes eles deixaram um bafo, que é como vejo essa nuvem. E esse bafo nos chegou. Essa nuvem tem caminhado pelo mundo, pelo menos foi a imagem que eles me mostraram. Ela não estaciona aqui, ela caminha, segue, do Iraque, Irã, Coreia, India, Siria, Paquistão, Serra Leoa, Africa do Sul, Venezuela, França, Bélgica, Inglaterra, Portugal, Espanha, Alemanha, Eua. Não há país incólume a essa baforada e não há tranquilidade enquanto ela passa. O que me chama atenção é o que fica e como ficamos depois que essa energia passa.

Agora, ela está no Brasil e precisamos compreender a lógica que ela atua.

Primeiro, ela não é exclusividade nossa;
Segundo, ela não deve ser personificada;
Terceiro, ela não cede e nem perde.

Na psicografia sobre as drogas, fiquei espantado quando num desdobramento, eu via que ‘os caras’ que no astral negociavam a chacina eram os mesmos que comandavam também do astral pastores a ‘queimar’ espíritos no altar. Essas forças estavam em todos os lugares. Na morte do repórter assassinado, eles estavam na negociação de captura de ectoplasma pela TV. Eles não perdem, não cedem e atuam no poder. 

Numa outra imagem que me fora mostrada meses atrás acerca da mineração, esses seres apareciam debaixo da terra. Na hora me veio o titulo do Eduardo Galeano: “ As veias abertas da América Latina.” E me reportou à África e os mesmos minérios que ao invés de gerar riqueza para todos, gera miséria em massa, um empobrecimento em todos os níveis. Eles sugam tudo. Falo disso no link abaixo

O Mar de Lama

No momento, nós estamos imersos nessa onda de tensão. Podemos acreditar que tem um lado certo composto de pessoas idôneas e outro lado oposto, errado, composto de pessoas demonizadas.

O que consigo compreender e captar é que a espiritualidade que conduz todo o processo em nome de um bem maior, espera que nos posicionemos, que enfrentemos os desmandos, os descasos, as arbitrariedades. Sinto que o desejo é o de não tolerarmos mais essa energia entre nós. O que é muito, mas muito diferente de atacar pessoas por vestirem camisa vermelha, ou agredirem outras por estar de camisa verde-amarela.

Em suma, o que percebo é que a questão não é a tomada de lado, se é de esquerda, ou se da direita, a questão é se nossos ideais são coletivos ou individuais? São democráticos e com isso republicano, ou são autocráticos e pretendem ferir o jogo republicano? Assim, a questão não é a disputa, mas como ela é realizada, em nome do que e de quem ela é feita. Nesse panorama o melhor é tentar ficar imóvel, irradiar luz para termos clareza. O melhor seria não engrossar as vozes do caos, do ódio, da balburdia, por mais que você acredite que é o correto, que está do lado certo.


Todas as vezes que entramos na raiva, no ódio ( e está difícil não ter e sentir) são essas nuvens que ganham. Eles ganham com nosso ódio, eles ganham com nossa raiva, eles ganham com nosso desamor. O que os alimenta é essa energia de tensão, de medo, de desconfiança, de insegurança. E aqueles que estão nos conduzindo nessa direção, são aqueles que estão influenciados por essas forças. E, não importa o partido. 

No cenário do Estado Democrático de Direito, opositor sai dessa condição, se tornando uma liderança, construindo ano a ano, ação por ação, condições de ter a confiança dos eleitores. Na democracia perder por um ou por dez milhões implica na aceitação da vontade da maioria e a construção para conquistar o voto que faltou, ou que faltaram. Não cabe a vaidade, não cabe o orgulho. A situação não pode ser alterada pelo poder econômico de uns, ou pelo acesso jurídico de outros. Na busca pela integridade, a mudança se faz integralmente de forma integra. 

De modo que, lutemos, mas sem ódio, ou melhor, nos posicionemos desconfiando que podemos estar enganados. 






quarta-feira, 9 de março de 2016

OLX: DESAPEGA!!! DESAPEGA!!!


A propaganda, claramente, nos fala do desapego, embora de forma comercial. Ela se torna emblemática para pensarmos e analisarmos algumas situações referentes ao apego, tanto na sua esfera material, quanto na sua esfera espiritual. O que de forma alguma nos impede de pensarmos e refletirmos: a que e ao que estamos apegados? Na maioria das vezes não sabemos, não percebemos e só nos damos conta em situações limites. Situações nos quais privados desse algo constatamos o tanto que estávamos apegados, desde uma pessoa, passando por circunstâncias até chegarmos às coisas. Estamos presos, apegados a algo ou alguém.

Friso isso, porque espiritualistas falam muito do apEGO e do desa-pEGO. Estamos entendendo, o apEGO como aquilo que se associa ao ego e o desapEGO como aquilo com o que o ego não mais se associa. Mais do que uma associação o apego é uma identificação. E como nos identificamos atualmente. Temos tantas identificações que identificar-se tem sido um problema. De todo modo, vale o exame de consciência: você está apegado a que? A quem? Se morresse amanhã ficaria preso a alguma coisa? Alguém te prenderia? E aqui exploramos duas possibilidades do apego.



Recordo-me que na década de 1990, eu respondi a essa pergunta eu era mais solto, não tinha nenhum entrave existencial que me fizesse pedir por mais dois minutos caso a morte me chamasse. Hoje, tenho filhos, tenho ações não feitas, tenho amores não concluídos. Hoje estou apegado, mas é isso um mal como alardeiam os espiritualistas? Provavelmente, não. Para mim e muitas pessoas que conheço e atendo, esses apegos nos deram ancora, nos deram chão, nos deram Terra e incorporação. Sem eles estaríamos vagando por aí. Muitos veem e interpretam isso como sendo condição necessária para o desenvolvimento e a prática espiritual, o que não deixa de ser uma verdade. Mas, não posso deixar de frisar e salientar como que o se atentar para o relacionamento, para o matrimônio, para com os filhos, remete a mesma compenetração e profundidade da vida celibatária, monástica, dedicada ao outro. Quero dizer que embora esses dois caminhos sejam apresentados como antagônicos, há possibilidades cada vez maiores de seres que os integram, os unificam e caminham pelos dois ao mesmo tempo, que percorre um só, ou ambos.


Na vida de modo geral não é nada diferente. Nos apegamos, nos agarramos a pequenas coisas que se nos tiram- agredimos, ficamos ofendidos, magoados, chateados. A maioria de nós tem dificuldade de deixar uma pessoa passar na nossa frente ao entrar no ônibus e quando nos sentamos... aquilo não é mais uma cadeira, é um trono. Nós nos apegamos à cadeira de bus. Eu fico curioso com tudo isso, como que ao alugarmos um quarto no hotel, no primeiro dia tudo é estranho, no segundo, terceiro dia, nos apegamos. Somos capturados pelo pronome possessivo MEU. Você poderia pedir para limparem MEU QUARTO! Você pode me chamar no MEU QUARTO! Vamos embora no dia seguinte, mas tomamos posse. Fazemos o mesmo movimento com casa alugada, com carro, com bichos, com outro ser humano. A medida que o pronome vai sendo usado com desenvoltura, mais o apego cresce, se avoluma em nós. Mais prendemos e vamos ficando presos.
De modo que desapegar não é fácil e não é atoa que é a grande lição do budismo e da maioria dos ensinamentos espirituais. Nas reuniões espirituais o que observamos são os apegos, são eles que nos prendem. Não importa aqui se é o de álcool, de drogas, de sexo, de carne, de ciúme, amor, ódio e vingança. É o apEGO que nos aprisiona, nos retém, nos paralisa, nos inviabiliza, porque todo apEGO é repleto de medo, de ansiedade e por vezes de angustia.

Longe da proposta do abandono e da renuncia do ego o que reputo salutar é praticarmos a arte do desapEGO todos os dias, ou melhor, todo mês, no mínimo uma vez por ano para que ele não se solidifique muito. Para que a gente não se ache demais, demasiadamente. Quanto mais seres, objetos temos sob nossa captura, maior a sensação do Ego de comando, de domínio, de potência, de arrogância, enfim, de ilusão. O dar, o compartilhar, o renunciar auxilia na diminuição desse estado. 

A arte OLX, isto é, de desapegar-se das coisas, dos outros, de nós mesmos vai nos auxiliando a consolidar um espaço de liberdade e autonomia aos seres a nossa volta. No que se refere aos objetos, a medida que nos desapegamos vamos ficando mais livres, mais conscientes, aquele espaço antes reservado a ansiedade, a angustia, a dor e ao sofrimento vai sendo preenchido por algo mais leve, mais tênue, mais substancial. Uma outra substância vai crescendo e nos coabitando, vamos ficando mais plenos de nós mesmos ao não estarmos apEGOdos, identificados a outras coisas que são e não são eus.